quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Aterrando mangues e destruindo o futuro

Com o novo Código Florestal brasileiro, Lei 12.651 de cinco de maio de 2012, vitória de ruralistas e derrota dos ambientalistas, tudo fica mais fácil para se usar as áreas de preservação permanente definidas pela Lei, que abre muitas brechas, inclusive para os mangues e áreas de restingas. Antes do advento da lei, ora em vigor, duvido que as autoridades constituídas do Rio de Janeiro teriam permitido aterrar o Campo da Féem área reconhecida como de “preservação permanente em toda sua extensão”. Porém com tantas excepcionalidades para o “interesse social” e para a “utilidade pública” parece que tudo se consegue.

A providência divina ou as forças da natureza agiram e tudo se tornou como seria de esperar, uma área alagada e barrenta. Quanto dinheiro jogado fora e quanta vida marinha perdida já que o mangue é o berço de muitas espécies vivas entre mamíferos, aves, peixes, moluscos e crustáceos, indispensáveis para as populações costeiras que dele extraem seus alimentos. Os mangues são responsáveis ainda pela produtividade primária das zonas costeiras. Produzem expressiva quantidade do alimento que o homem pesca. Além do mais são filtros para os sedimentos que se encaminham para o mar e bancos genéticos indispensáveis para reflorestamento, que evitam ou minimizam a presença de metais pesados em áreas similares.

Embora o assunto no Campo da Fé tenha chamado a atenção e agora as autoridades responsáveis comecem a se pronunciar, resulta evidente, no Brasil, que nem é mais preciso se esconder para aterrar mangues ou outras áreas de preservação permanente. Tudo é executado na frente de todos. Não há mais medo. Aterra-se e pronto. 

Destruição em Floripa

"Bairros inteiros se levantaram sobre mangue, como no caso de Daniela, mesma situação de enormes shoppings e hotéis. Estes fatos deram lugar a escândalos, é verdade, entretanto não impediram a sua construção nem seu funcionamento."
Vivo em Florianópolis, cidade que é considerada a melhor capital para se viver no nosso país, que está em região de produção de ostras, com 95% da produção brasileira, com criações de vieiras, mexilhões e outras, onde as baleias francas veem parir e amamentar seus filhotes, onde existe a pesca de milhares de toneladas de tainha e de anchova anualmente. Isso acontece não obstante o fato de que grande parte da expansão urbana das quatro ou cinco últimas décadas tenha sido feita principalmente sobre os manguezais ou sobre restingas e dunas. Bairros inteiros se levantaram sobre mangue, como no caso de Daniela, mesma situação de enormes shoppings e hotéis. Estes fatos deram lugar a escândalos, é verdade, entretanto não impediram a sua construção nem seu funcionamento. E tudo continua igual. Por exemplo, agora, na sombra de um shopping se está terminando de saturar o pouco de mangue que restou nos lados da rodovia 401. No final, desparecerão os cinco grandes manguezais da Ilha de Santa Catarina: Ratones, Saco Grande, Itacorubi, Rio Tavares e Tapera, que já estão reduzidos à sua mínima expressão. E com eles, muito da riqueza do litoral da ilha. 

Para salvar alguma coisa dos mangues, os pescadores e os cientistas conseguiram, com grande dificuldade, estabelecer algumas reservas, como a Estação Ecológica dos Carijós e a Reserva Extrativista Pirajubaé. Vã Ilusão. Ambas estão sendo corroídas pelas bordas por invasores e impactadas pela contaminação. Pior ainda, o próprio governo participa da destruição com a sempiterna desculpa da utilidade pública.

Esse caso atual ocorre na Reserva Extrativista Marinha de Pirajubaé, onde se está fazendo uma ampla duplicação da estrada que leva até o aeroporto Hercílio Luz. E, aproveitando da ocasião, também se está construindo, em área de mangue, escolas e creches, prometidas por políticos certamente. Ninguém se opõe a melhores estradas e infraestrutura de educação. Porém, tinha-se que destruir manguezais e áreas verdes para isso? A estrada cruza aonde há um grupo organizado de pescadores, os mesmos que conseguiram estabelecer a Reserva, e extraem os berbigões tão típicos de Santa Catarina. As fotos tiradas agora para esta coluna provam o que aqui se diz. 

Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas

E depois como vão ser as inundações? Como manter o fluxo das águas tão vital para o mangue? Quem vai pagar pelas sequelas? Porque ostreicultores e demais pescadores não protestam? Eles serão os primeiros a sentirem os prejuízos. Não importa, pois isto é o futuro e o que interessa é o agora. Ninguém pensa nas sequelas ou dimensiona os prejuízos sociais e ambientais. Já estamos conseguindo praticamente acabar com todos os mangues e restingas do Brasil, que naturalmente ocorriam do Amapá até Santa Catarina.

Outra vez digo: ninguém parece prestar atenção ou se importar. O que aconteceu com o Campo da Fé foi um bendito exemplo das consequências de se ir além da lei e das regras da natureza. Chamou a atenção pela irresponsabilidade e desmandos de autoridades. Quem sabe foi algo para se chamar atenção com relação à desenfreada destruição dos mangues? Quem sabe se esse incidente evitará outros desastres?

Fonte: http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=97355225728243995#editor/target=post;postID=1704483554558762917

Golfinhos conseguem reconhecer-se após 20 anos separados

Assobios característicos são mais fiéis dos que as feições para os humanos.

Os golfinhos são capazes de reconhecer um membro da sua espécie após vinte anos de separação, revela um estudo a publicar na edição de quarta-feira da revista «Proceedings B», da Sociedade Real Britânica.

Segundo a investigação noticiada nesta terça-feira pela AFP, o reconhecimento entre os golfinhos, através do assobio característico que emitem e que varia entre cada exemplar da espécie, pode durar mais tempo do que o reconhecimento humano pelas feições. O assobio dos golfinhos permanece estável enquanto o rosto das pessoas muda com o passar dos anos.

O estudo, conduzido pelo investigador Jason Bruck, da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, foi feito a partir de uma amostra de 43 golfinhos de seis parques zoológicos e aquáticos, que têm a particularidade de terem trocado animais.

A experiência consistiu em fazer com que os golfinhos escutassem o registo de assobios de outros elementos da espécie tendo sido constatado que reagiram aos assobios familiares de golfinhos com os quais tiveram contacto há muitos anos.

«Assim que ouvem um golfinho que conhecem, aproximam-se, frequentemente de forma rápida, do altifalante (...). Por vezes, andam à volta, assobiam, tentam obter uma resposta», descreveu Jason Bruck.

O assobio funciona para os golfinhos como uma espécie de assinatura pessoal, identificável pelos seus semelhantes.

Jason Bruck citou o caso de Bailey, um golfinho que, após vinte anos e meio de separação de um outro, Allie, reconhece o assobio deste.

Para o investigador, a reputação de que gozam os elefantes de jamais esquecerem um membro da sua espécie assenta em «provas anedóticas».

No seu habitat natural, os golfinhos vivem em média vinte anos, mas alguns podem mesmo chegar até aos 45 anos.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Mar em Colapso - adeus aos tubarões, eunices, donzelas e papagaios


Em Isla Mujeres, Quintana Roo, no México, um peixe-papagaio-arco-íris acompanha um cardume de cirurgiões Acanthurus spp. Foto: Fabio Olmos

Devemos cultivar o mar e cuidar de seus animais usando os mares como fazendeiros e não como caçadores. Esta é a essência da civilização: o cultivo substituindo a caça.

Jacques Yves Cousteau, oceanógrafo
 







Apesar de serem consideradas como recursos ilimitados, espécies marinhas enfrentam declínios comparáveis ou maiores aos enfrentados por espécies terrestres. Nas últimas décadas houve uma aceleração do processo de perda de habitats e, por exemplo, cerca de 1/5 dos manguezais do mundo foram perdidos entre 1980 e 2005, especialmente para fazendas de camarão e ocupação urbana. Além disso, 57% dos recifes de coral foram perdidos ou encontram-se degradados, e 85% dos recifes de ostras, uma antiga característica de estuários temperados, foram extintos no mundo. 

A destruição de habitats é resultado de um conjunto de forças: a exploração direta, como a de corais e ostras que formam recifes; de alterações nas condições ambientais, através do aumento de sedimentos trazidos por rios cujas margens foram desmatadas; e de técnicas de pesca destrutivas, tais como as redes de arrasto e o uso de explosivos.

Algumas espécies marinhas, que incluem vários moluscos, peixes como a donzela-das-Galápagos (Azurina eupalama) e o bodião-verde-de-Mauritius (Anampses viridis) e macroalgas (Gigartina australis eVanvoortsia bennettiana) provavelmente já foram extintas devido a alterações em suas pequenas áreas de ocorrência, especialmente devido à poluição, mudanças climáticas, dragagens e aumento na sedimentação. 

Outras extinções parecem resultar de mudanças naturais no meio ambiente físico, o que foi sugerido para explicar o declínio do braquiópodo Bouchardia rosea no sudeste do Brasil, embora o impacto da pesca de arrasto sobre seu habitat deva ser considerado. 

Pesca

Entretanto, é a pesca, ou melhor, a exploração direta de populações animais e vegetais o principal fator levando espécies marinhas à extinção.

São bem conhecidas as extinções totais de mamíferos marinhos como a vaca-marinha-de-steller (Hydrodamalis gigas), presente do Japão à Califórnia antes que humanos inventassem barcos e arpões, a foca-monge-do-Caribe (Monachus tropicalis) e a baleia-cinzenta-do-Atlântico (Eschrichtius robustus). Igualmente bem sabidas são as extinções locais e ecológicas de espécies antes comuns. Entre elas, o peixe-boi-marinho (Trichecus manatus), que ocorrida do Espírito Santo ao Amapá e dali em todo o Caribe e Golfo do México; e baleias, como a azul (Balaenoptera musculus). Para saber mais sobre o assunto recomendo An Unnatural History of the Sea, de Callum Roberts. 

Menos conhecidas são as extinções de criaturas com menor carisma.

Várias espécies de peixes capturados comercialmente estão seguindo o mesmo caminho, uma história de exploração insustentável que teve início com o uso humano dos recursos pesqueiros. Poucos recordam que, como fazem os salmões, não muitos séculos atrás, esturjões beluga (Huso huso) de 8,5 m migravam do mar para desovar no Danúbio, sustentando comunidades pré-romanas. E que foi o esgotamento de estoques pesqueiros na Europa medieval, já no ano 1000, que levou à exploração do Mar do Norte e às primeiras travessias transatlânticas (vejam Fish on Friday, de Brian Fagan).

Através da história, a pesca tem funcionado em ciclos de boom-colapso, explorando “estoques pesqueiros” até que a atividade se tornasse anti-econômica e, depois, passando à espécie seguinte. No mundo há exemplos clássicos, entre eles o colapso das populações de bacalhau (Gadus morhua) no Atlântico Norte, onde se dizia ser possível caminhar sobre os peixes na água tal era sua abundância. Atuns-de-nadadeira-azul (Thunnus thynnus) já foram reduzidos em mais de 85% e caminham para sua extinção ecológica (e eventualmente econômica), enquanto preços cada vez mais elevados e subsídios governamentais dão impulso econômico a uma atividade biologicamente insustentável.

Situação no Brasil

"Infelizmente, no Brasil, as áreas protegidas na zona costeira ocupam apenas 1,5% de nossos mares, e mesmo este percentual inclui em sua maior parte restingas e manguezais"
No Brasil, considera-se que 80% dos estoques pesqueiros explorados comercialmente encontram-se sobrexplotados ou já colapsaram. A pesca da sardinha (Sardinella brasiliensis) levou ao colapso das suas populações, que hoje se recuperam apenas devido à imposição de defesos aceitos de má vontade pelos empresários da pesca. Os restos de enlatadoras de sardinhas na Baía da Ilha Grande (RJ) e litoral de São Paulo são testemunhas do colapso do recurso. 

Um caso que deveria ser mais divulgado é o da população brasileira do budião ou peixe-papagaio (Scarus guacamaia), um gigante de 1,20 m e 20 kg, que talvez fosse uma espécie diferente da do Caribe, extinta por pescadores artesanais e caçadores submarinos que visam adultos e por impactos nos manguezais dos quais os juvenis dependem. Mesmo destino tiveram populações locais de vários peixes recifais ou “de toca” e lagostas capturados por pescadores e caçadores submarinos. 

Entre os que mais sofreram declínios estão as caranhas e pargos (Lutjanus spp.), meros (Epinephelus itajara) e garoupas e badejos (Mycteroperca spp). Antes comuns em locais como as ilhas do litoral paulista, estas espécies foram eliminadas das áreas que não contam com proteção. Um dos fatores que contribui para o declínio de espécies como garoupas e badejos é o fato de serem hermafroditas protogínicos. Ou seja, os exemplares grandes são todos machos e sua remoção pela pesca afeta a estrutura populacional e o sucesso reprodutivo.

Invertebrados também têm sido localmente extintos, como o grande búzio (Strombus brasiliensis), que ocorria do Ceará ao Espírito Santo e é coletado pela sua carne, enquanto a concha é vendida como souvenir. Este comércio também eliminou populações locais de estrelas-do-mar de maior porte, enquanto o comércio para aquariofilia extinguiu populações da anêmona gigante (Condylactis gigantea) em locais como Búzios (RJ). A coleta para isca de pesca, por sua vez, eliminou poliquetos de grande porte, como o surreal Eunice Sebastiani de boa parte das áreas onde ocorriam.

A pesca de arrasto, que visa principalmente camarões, também destrói habitats, como as pradarias defanerógamas, e captura outras espécies que se tornaram praticamente extintas. Um exemplo clássico são as vieiras (Euvola ziczac) na costa sudeste do Brasil, ainda comuns na década de 1970, ou os cações-viola (Rhinobatos spp.) e várias estrelas-do-mar. Deve-se também enfatizar que a pesca com espinhéis pelágicos voltada a atuns, tubarões e peixes de bico é uma das principais causa do declínio de tartarugas-marinhas e albatrozes, além dos próprios tubarões.

Tubarões, peixes-serra (Pristis spp.) e raias-manta (Manta e Mobula spp.), que em geral apresentam baixa fertilidade e levam às vezes mais de 10 anos para atingir a maturidade sexual, constituem um dos grupos mais ameaçados, com extinções totais em grande parte de antigas áreas de ocorrência (exemplo, os peixes-serra no leste brasileiro) e declínios generalizados. 

Por exemplo, descrito por Jacques Cousteau como o mais abundante no planeta, o tubarão-galha-branca-oceânico (Carcharhinus maou ou longimanus), teve declínio de mais de 90% no Atlântico Ocidental. Tubarões-de-galápagos (Carcharhinus galapagensis) eram tão comuns nos remotos Penedos de São Pedro e São Paulo na década de 1970 que dificultavam o desembarque e o mergulho. Esta população foi totalmente extinta por barcos espinheleiros que continuam atuando na região.

Endêmico do litoral orlado por manguezais sob influência da descarga do rio Amazonas, o cação-quati (Isogomphodon oxyrhynchus) sofreu um colapso populacional superior a 90% como resultado da captura em redes de espera e arrasto e está gravemente ameaçado de extinção. No litoral do Rio Grande do Sul, a pesca levou a reduções drásticas nas populações de cações-anjo (Squatina spp.), violas (Rhinobatos horkelii) e cações-listrados (Mustelus fasciatus), especialmente quando praticada nas áreas de reprodução. Hoje, esses animais estão ameaçados de extinção. 

A pesca de arrasto continua a ocorrer nesta região, apesar de restrições legais, devido à falta de fiscalização no mar e o expediente dos barcos pesqueiros desembarcarem sua captura com auxílio de embarcações menores que evitam o controle dos terminais de pesca onde há fiscais. 

Efeito Dominó

Peixe-papagaio-arco-íris (Scarus guacamaia). Foto: Fabio Olmos
O colapso de populações leva a um rearranjo das comunidades e ecossistemas já que espécies que se tornam funcional ou ecologicamente extintas podem causar efeitos-dominó. O colapso de populações de peixes abundantes e com alto conteúdo energético como sardinhas, manjubas e cavalas afeta seus predadores, que podem também ter suas populações reduzidas ou utilizar outras espécies até então livres de predação. Também são perdidas interações importantes, como aquelas entre aves marinhas que se alimentam em associação a atuns e outros predadores oceânicos. Em diversas partes do mundo nota-se um aumento nas populações de águas-vivas e ctenóforos associado ao declínio das populações de peixes explorados comercialmente, indicando mudanças fundamentais nos ecossistemas.

A forma mais eficiente de enfrentar a extinção de espécies marinhas é estabelecer áreas protegidas como zonas de exclusão de pesca, parques e reservas marinhas onde a pesca (mas não outras atividades) é proibida. Na verdade, sabe-se hoje que estas áreas podem aumentar a produtividade pesqueira de uma região por atuarem como uma fonte de recrutas que colonizam as áreas sujeitas à pesca.

Infelizmente, no Brasil, as áreas protegidas na zona costeira ocupam apenas 1,5% de nossos mares, e mesmo este percentual inclui em sua maior parte restingas e manguezais. Não há nenhuma unidade de conservação federal de proteção integral totalmente marinha. Somente 18% dos estuários estão em áreas protegidas e este índice cai para 0,2% quando se considera apenas as unidades de proteção integral. 

No caso dos manguezais, o porcentual total de proteção chega a 75% se são consideradas as áreas de proteção ambiental (APAs), categoria de “proteção” que na verdade tem pouco valor na prática. O percentual cai para 13% se ao consideradas apenas as unidades de proteção integral. Deve-se notar que o Código Florestal considera manguezais áreas de preservação permanente, embora na prática esta disposição seja contornada por obras de “interesse social” como portos e instalações industriais.

Mesmo nas reservas existentes há problemas de gestão, como exemplificado pela Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, onde a caça submarina é comum mesmo em áreas proibidas e a pesca industrial ainda ocorria com conivência dos “extrativistas”.

Regiões importantes continuam desprotegidas sem que haja esforço para sua proteção. Entre estas estão as áreas de reprodução de cações e violas no Rio Grande do Sul, os montes submarinos da cadeia Vitória-Trindade, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, estuários e ilhas costeiras no litoral sudeste, estuários no Maranhão e Pará e recifes na plataforma continental entre a Bahia e o Espírito Santo, além do entorno de ilhas. No último caso, há os exemplos da ilha de Queimada Grande e o arquipélago de Alcatrazes, onde uma proposta de parque nacional marinho aguarda há décadas para avançar.

Estas seriam áreas a considerar caso o Brasil deseje atingir os 12% de áreas marinhas protegidas que as Nações Unidas propõem como meta para 2020.

*Texto adaptado de Espécies e Ecossistemas, mais recente livro de Fabio Olmos


Autor deste blog, Fabio Olmos é biólogo e doutor em zoologia. Tem um pendor pela ornitologia e gosto pela relação entre ecologia, economia e antropologia. Seu último livro, sobre ecossistemas brasileiros e conservação, éEspécies e Ecossistemas.

Fonte: http://www.oeco.org.br/olhar-naturalista/27449-o-triste-estado-dos-colapsos-e-extincoes-nos-oceanos

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Cientistas descobrem o que está matando as abelhas, e é mais grave do que se pensava

Como já é sabido, a misteriosa mortandade de abelhas que polinizam US $ 30 bilhões em cultura só nos EUA dizimou a população de Apis mellifera na América do Norte, e apenas um inverno ruim poderá deixar os campos improdutíveis. Agora, um novo estudo identificou algumas das prováveis causas da morte das abelhas, e os resultados bastante assustadores mostram que evitar o Armagedom das abelhas será muito mais difícil do que se pensava anteriormente.

10 milhões de colmeias, no valor de US $ 2 bilhões, morreram nos últimos seis anos nos EUA
As vendas de fungicidas cresceram mais de 30% e as vendas de inseticidas também cresceram significativamente no Brasil durante o primeiro trimestre de 2013. Divulgou a suíça Syngenta, uma das maiores empresas de agroquímicos e sementes do mundo. Crédito: Ben Margot/AP

Os cientistas tinham dificuldade em encontrar o gatilho para a chamada Colony Collapse Disorder (CCD), (Desordem do Colapso das Colônias, em inglês), que dizimou cerca de 10 milhões de colmeias, no valor de US $ 2 bilhões, nos últimos seis anos. Os suspeitos incluem agrotóxicos, parasitas transmissores de doenças e má nutrição. Mas, em um estudo inédito publicado este mês na revista PLoS ONE, os cientistas da Universidade de Maryland e do Departamento de Agricultura dos EUA identificaram um caldeirão de pesticidas e fungicidas contaminando o pólen recolhido pelas abelhas para alimentarem suas colmeias. Os resultados abrem novos caminhos para sabermos porque um grande número de abelhas está morrendo e a causa específica da DCC, que mata a colmeia inteira simultaneamente.

Quando os pesquisadores coletaram pólen de colmeias que fazem a polinização de cranberry, melancia e outras culturas, e alimentaram abelhas saudáveis, essas abelhas mostraram um declínio significativo na capacidade de resistir à infecção por um parasita chamado Nosema ceranae. O parasita tem sido relacionado a Desordem do Colapso das Colônias (DCC), embora os cientistas sejam cautelosos ao salientar que as conclusões não vinculam diretamente os pesticidas a DCC. O pólen foi contaminado, em média, por nove pesticidas e fungicidas diferentes, contudo os cientistas já descobriram 21 agrotóxicos em uma única amostra. Sendo oito deles associados ao maior risco de infecção pelo parasita.

O mais preocupante, as abelhas que comem pólen contaminado com fungicidas tiveram três vezes mais chances de serem infectadas pelo parasita. Amplamente utilizados, pensávamos que os fungicidas fossem inofensivos para as abelhas, já que são concebidos para matar fungos, não insetos, em culturas como a de maçã.

"Há evidências crescentes de que os fungicidas podem estar afetando as abelhas diretamente e eu acho que fica evidente a necessidade de reavaliarmos a forma como rotulamos esses produtos químicos agrícolas", disse Dennis vanEngelsdorp, autor principal do estudo.

Os rótulos dos agrotóxicos alertam os agricultores para não pulverizarem quando existem abelhas polinizadoras na vizinhança, mas essas precauções não são aplicadas aos fungicidas.

As populações de abelhas estão tão baixas que os EUA agora tem 60% das colônias sobreviventes do país apenas para polinizar uma cultura de amêndoas na Califórnia. E isso não é um problema apenas da costa oeste americana - a Califórnia fornece 80% das amêndoas do mundo, um mercado de US $ 4 bilhões.

Nos últimos anos, uma classe de substâncias químicas chamadas neonicotinóides tem sido associada à morte de abelhas e em abril os órgãos reguladores proibiram o uso do inseticida por dois anos na Europa, onde as populações de abelhas também despencaram. Mas Dennis vanEngelsdorp, um cientista assistente de pesquisa na Universidade de Maryland, diz que o novo estudo mostra que a interação de vários agrotóxicos está afetando a saúde das abelhas.

"A questão dos agrotóxicos em si é muito mais complexa do acreditávamos ser", diz ele. "É muito mais complicado do que apenas um produto, significando naturalmente que a solução não está em apenas proibir uma classe de produtos."

O estudo descobriu outra complicação nos esforços para salvar as abelhas: as abelhas norte-americanas, que são descendentes de abelhas europeias, não trazem para casa o pólen das culturas nativas norte-americanas, mas coletam de ervas daninhas e flores silvestres próximas. O pólen dessas plantas, no entanto, também estava contaminado com pesticidas, mesmo não sendo alvo de pulverização.

"Não está claro se os pesticidas estão se dispersando sobre essas plantas, mas precisamos ter um novo olhar sobre as práticas de pulverização agrícola", diz vanEngelsdorp.


Fonte: Quartz News

Enviado por Dr. Danilo Boscolo 

Hidrelétrica do Bem Querer: grande lago, pouca energia

Hidrelétrica do Bem Querer está prevista para ficar próxima ao município de Caracaraí. Mapa viaInfoamazonia

Não há como separar Roraima de seu rio principal, o rio Branco. Por ele chegaram os portugueses que tomaram posse da região, dando ao extremo norte do Brasil os contornos que têm hoje. Ele e seus tributários banham aproximadamente 90% da área do estado. O Branco faz parte da história e da identidade do lugar. “Ele é o sentido da existência de Roraima”, afirma o advogado Jaime Brasil, que escreve há 5 anos sobre questões ambientais no Jornal Folha de Boa Vista. “É como se fosse nosso Ganges. Roraima só se tornou pedaço do Brasil, porque o rio Branco dava acesso a essa região”. Entretanto, o rio Branco também sofre o peso dos planos e projetos de desenvolvimento feitos para o estado. Se cresce a capital Boa Vista, aumenta a quantidade de esgoto mal tratado despejado no rio. Se a produção de arroz se desenvolve, os agrotóxicos escorrem para ele. E, agora, há de satisfazer também o apetite do governo federal por energia elétrica.

Parte do Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC 2, o projeto da Hidrelétrica Bem-Querer, em Caracaraí, ficará no local da também chamada Cachoeira do Bem Querer, um importante ponto turístico do estado. O investimento previsto para a usina é de R$ 3,9 bilhões. A sua barragem criará um lago ao longo de 135 quilômetros do rio Branco, que se estenderia até áreas acima de Boa Vista. Ele vai inundar praias, propriedades rurais, toda a mata ciliar que ainda existe ao longo desse trecho do rio e destruir parte da BR-174, rodovia que liga a capital de Roraima e Manaus. Os impactos serão sentidos em 6 dos 15 municípios do estado e 7 unidades de conservação federais vão ser afetadas. Há também preocupação com os impactos sociais e econômicos sobre 12 mil pequenos agricultores e 9 mil pescadores artesanais que atual na região.

O lago de 559 quilômetros quadrados que vai se formar é maior do que o reservatório previsto para Belo Monte, no Pará, que terá 519 quilômetros quadrados. Mas a usina paraense prevê uma capacidade instalada de cerca de 11.200 megawatts, contra 708 megawatts da usina do Bem Querer (ou 6,3% de Belo Monte). Esta péssima relação entre área alagada e energia gerada se deve a uma característica do Rio Branco: ele corre em uma área plana, sem uma grande queda d’água que possa ser aproveitada para a geração de energia. É mínima a diferença entre a altitude na confluência dos rios Tacutu e Uraricoera, onde o rio Branco se forma, e a sua foz no Rio Negro, na divisa entre Roraima e Amazonas. Fica em torno de 50 metros. E entre a cidade de Boa Vista e o local previsto para a barragem essa diferença é de apenas 17 metros.

Para os críticos, a interpretação desses números é simples: o impacto da hidrelétrica é alto para a produção de pouca energia. “Ela caminha para ser a pior hidrelétrica do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), nesta relação entre megawatts, área alagada e custo”, afirma o biólogo Ciro Campos, doInstituto Socioambiental. E os impactos na identidade do povo roraimense também não estão sendo levados em conta. “A corredeira, por exemplo, e tudo que está associado a ela. Tem muito bicho associado, às praias vão desaparecer, não vai ter mais”, diz o biólogo.

Grandes bagres prejudicados

Sylvio Romério Bríglia Ferreira, biólogo e analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, afirma que a barragem vai interferir no pulso de cheias e secas do Rio Branco, importante para a sobrevivência de centenas de espécies de peixes e outros organismos aquáticos. 

A transformação do rio em lago também preocupa. “Com o alagamento, a correnteza natural vai dar lugar a água parada, com isso afundam as ovas de várias espécies de peixes, que normalmente são carregados pela correnteza". Nascido em Roraima, Briglia acredita que as mudanças no regime do rio Branco devem levar a uma explosão da população de piabas (peixes pequenos) e ciclídeos, como carás e tucunarés, mas com redução no número de grandes bagres e characiformes, como matrinxã, aracu e jaraqui. 

Os grandes bagres da bacia amazônica migram pelo rio Branco para se reproduzir. A barragem pode interromper esse movimento. Ele destaca que em toda a Bacia do rio Branco e áreas vizinhas já foram descritas cerca de 550 espécies de peixes. A barragem deverá afetar o Parque Nacional do Viruá, considerada a região com uma das maiores diversidades de peixes do Brasil. 

Os impactos deverão ser sentidos a centenas de quilômetros rio abaixo, até mesmo no Parque Nacional de Anavilhanas, no Rio Negro, já no Amazonas. Boa parte dos sedimentos que formam as ilhas fluviais de Anavilhanas desce justamente pelo rio Branco, alimentado por outros cursos d’água que descem do Planalto das Guianas, como os rios Uraricoera e o Mucajaí. Devido à mudança na dinâmica do rio, o Parque Nacional Viruá e a Estação Ecológica Niquiá serão afetados diretamente, pois fazem limite com o Branco, logo abaixo de Caracaraí.

Apesar das críticas, a construção da usina foi aprovada pelo Senado. A autorização para que a hidrelétrica seja implantada foi dada pelo Projeto de Decreto Legislativo número 201, de 2007, apresentado pelo ex-senador roraimense Augusto Botelho. Para os defensores do projeto, como a senadora Angela Portela (PT/RR), a hidrelétrica vai resolver o problema da falta de energia no estado e trazer novos investimentos.

Hoje, Roraima usa um sistema elétrico isolado do resto do Brasil. O estado consome em média 90 megawatts de energia, com picos de quase 140 megawatts. A maior parte dessa energia é importada da Hidrelétrica de Guri, na Venezuela. Há uma hidrelétrica, com capacidade de menos de 10 megawatts, no Rio Jatapu, sul de Roraima, que utiliza umas das suas 4 turbinas e gera somente 2,5 megawatts. Além disso, existem termelétricas em municípios e comunidades do interior.

As chamadas Cachoeiras do Bem Querer seriam inundadas se a hidrelétrica sair. Foto: Bruno Souza
Alternativas

Represar o Rio Branco não é a única opção para abastecer o estado de Roraima. Entre as alternativas está a energia de Tucuruí, que já chegou a Manaus. Até Boa Vista, seriam aproximadamente mais 800 quilômetros de Linhão. Para o governo do Estado, a hidrelétrica no rio Branco não é a melhor opção. Segundo a Secretaria Estadual de Comunicação, a preferência seria por uma barragem no Rio Cotingo, que aproveitasse a Cachoeira do Tamanduá, que fica na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, Nordeste do Estado. A área inundada seria uma fração, 36 quilômetros quadrados (6,3% do lado da previsto para o lago no rio Branco). Mas a oposição dos índios ligados ao Conselho Indígena de Roraima (CIR) é entrave a esse projeto. A decisão será tomada pelo governo federal. Resta ao governo estadual aguardá-la. 

Roraima apóia também outra opção, a construção de duas hidrelétricas na República da Guiana, com a mesma capacidade dos projetos do lado brasileiro. Para o governo roraimense, interessado também no asfaltamento da estrada até Georgetown, capital do país, e na construção de um porto de águas profundas por lá. O Brasil poderia financiar as barragens no país vizinho em troca do fornecimento de energia.

Energia eólica 

Para suprir Roraima, há ainda uma alternativa que não foi estudada: os ventos que sopram no extremo norte do estado, na fronteira com a Venezuela e a Guiana. A região é montanhosa e, de acordo com as informações da Empresa de Pesquisa Energética, do governo federal, a região é uma exceção à falta de ventos na Amazônia.

Essas montanhas são altas o suficiente, segundo a EPE, para serem varridas por uma estreita faixa de ventos com velocidade média anual entre 8 e 10 metros por segundo, localizada entre 1.000 e 2.000 metros de altitude, que sopram da foz do Rio Amazonas para o interior do continente. Este é um potencial ainda desprezado, mas que chamou a atenção do Conselho Indígena de Roraima (CIR).

O biólogo Ciro Campos, do Instituto Socioambiental, coordena um estudo sobre o potencial dos ventos que sopram na Terra Indígena Raposa Serra do Sol para a geração de energia. A intenção dos índios, caso seja confirmada a viabilidade do aproveitamento, é incluir usinas eólicas no Programa Luz para Todos, que por enquanto prevê apenas a construção de pequenas hidrelétricas para abastecer as comunidades indígenas.

Fonte: http://www.oeco.org.br/reportagens/27446-hidreletrica-do-bem-querer-grande-lago-pouca-energia