segunda-feira, 10 de março de 2014

A inteligência das plantas revelada


Pesquisas recentes mostram que as plantas têm linguagem, memória, cognição e são capazes de fazer escolhas. Ao site de VEJA, pesquisadores desvendam o mecanismo da inteligência vegetal e mostram como as plantas passaram a dividir com os animais o status de criaturas autônomas e sensíveis

Rita Loiola
Mosca voa sobre uma planta carnívora
Mosca voa sobre uma planta carnívora  (Ralf Hettler/Getty Images)
Em 1880, o naturalista britânico Charles Darwin foi o primeiro a escrever que as extremidades das raízes vegetais "agem como o cérebro de animais inferiores". Desde então, cientistas descobriram que as plantas atuam também como se tivessem linguagem, memória, visão, audição, defesas e cognição. Percebem-se como indivíduos e são capazes de fazer escolhas. Em outras palavras, elas têm o que Darwin previa no último parágrafo de seu livro O Poder do Movimento nas Plantas: inteligência.
As evidências para isso vêm de diversos países ao redor do globo, em instituições de pesquisa como a Universidade da Califórnia e a Universidade de Washington, nos Estados Unidos, o Instituto Max Planck e a Universidade de Bonn, na Alemanha, a Universidade de Lausanne, na Suíça, além de institutos de pesquisa no México, França, Itália e Japão.
Nos últimos meses, diversos estudos, publicados em revistas científicas como NatureScienceou Plos One têm demonstrando o funcionamento dessas até então desconhecidas habilidades vegetais. E provado que as plantas estão longe de ser criaturas passivas, como se acreditava. Um dos estudos mais recentes, divulgado no fim do ano passado na revista Ecology Letters, mostrou como as plantas se comunicam por meio de compostos voláteis. Viajando pelo ar, eles avisam outras árvores sobre a presença de herbívoros potencialmente perigosos — as folhas recebem a mensagem e tornam-se mais resistentes às pragas.
"As plantas são capazes de comportamentos muitíssimo mais sofisticados do que imaginávamos", afirma o biólogo Rick Karban, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e principal autor do estudo sobre comunicação vegetal. "Elas passaram por uma seleção em que tiveram de lidar com os mesmos desafios que os animais e desenvolveram soluções que, às vezes, guardam semelhanças com as deles." É o avanço dos estudos em biologia e fisiologia vegetal, aliado a tecnologias mais potentes para conduzir experimentos e recolher dados, que está fazendo com que os cientistas percebam que árvores e arbustos são criaturas sensíveis, que dividem o mesmo espaço com os animais na escala evolutiva.

História

Neurobiologia vegetal
O hesitação de cientistas em usar metáforas animais para falar plantas está ligda ao sucesso do livro A vida secreta das plantas, lançado originalmente em 1973, nos Estados Unidos. Nele, os autores Peter Tompkins e Christopher Bird afirmam que as plantas interagem com os homens, reagem a seus pensamentos e ações e têm memória de eventos traumáticos. O best-seller esotérico influenciou gerações — contribuiu para que até hoje pessoas conversem com suas plantas ou abracem árvores.
Para quem vive nos laboratórios, o livro foi uma tragédia. "A maior parte do que está ali não é ciência", diz Elizabeth Van Volkenburg, bióloga da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Em 2006, ela percebeu como a obra lançava um estigma sobre áreas inteiras de pesquisa. Elizabeth assinoum com cinco colegas, um manifesto propondo uma área de estudos chamada "neurobiologia vegetal". "Tínhamos o propósito de chamar a atenção para os processos vegetais similares aos estudados por neurocientistas", diz a pesquisadora.
A resposta foi um artigo violento em que cientistas consideraram a palavra "neurobiologia" um acinte. Mesmo assim, Elizabeth abriu um departamento em seu laboratório para estudar o tema e fundou a Sociedade de Neurobiologia Vegetal, rebatizada de Sociedade de Comportamento e Sinalização Vegetal, pouco tempo depois. 
A língua das plantas — Quem está mostrando as evidências mais contundentes de uma cara característica animal — a linguagem — nos vegetais são pequenas artemísias. Há mais de uma década, Karban cuida do cultivo de quase cem delas em um campo aberto na Califórnia. Regularmente, suas folhas ganham pequenos cortes que imitam dentadas de insetos para que emitam os compostos orgânicos voláteis, conhecidos pela sigla VOC. O objetivo é entender o papel desses elementos perfumados na natureza, que parecem enviar mensagens muito precisas de uma planta para outra.
Com seu campo californiano, Karban não só provou que esses compostos existem, como percebeu que eles viajam a até 60 centímetros de distância e são percebidos por outros ramos da planta, por pés vizinhos da mesma espécie e, por vezes, por outras espécies que estão ao lado. "As plantas coordenam suas defesas e as de seus parentes", afirma Karban, que estuda o tema há mais de trinta anos. "Esse e outros trabalhos indicam que a comunicação entre os vegetais é um fenômeno real que ocorre na natureza."
Pelas contas do pesquisador, outros 48 estudos de comunicação vegetal confirmam que as plantas detectam esses sinais aéreos. E dominam mais de uma língua: algumas conseguem também enviar mensagens para predadores de herbívoros que, atraídos pelos compostos emitidos, evitam que as folhas sejam comidas. "Plantas reconhecem os herbívoros que as atacam, às vezes até antes que eles cheguem", diz o pesquisador. "Descobrir essa linguagem das plantas, além de ser muito interessante, pode nos mostrar como manipular a defesa de safras inteiras."
Sinapses vegetais — Afora as mensagens voláteis, as plantas emitem sinais elétricos — semelhantes a sinapses dos neurônios — para enviar informações entre uma célula e outra. Edward Farmer, o biólogo pioneiro em pesquisas sobre comunicação vegetal da Universidade de Lausanne, na Suíça, descobriu, há alguns meses, uma maneira até então inédita de transmissão de sinais elétricos vegetais, com pulsos que seguem por longas distâncias entre as membranas da planta. É como um rudimento das sinapses animais.
“Esses sinais elétricos que viajam através dos tecidos resultam em diversas respostas, afetando a expressão dos genes ou ativando processos bioquímicos. Mostramos que alguns deles são importantes para comunicar ferimentos sofridos pelo vegetal”, afirma Farmer. É mais ou menos o mesmo princípio que nos faz perceber estímulos e responder a eles, mas em sua versão vegetal.  
O bioquímico, no entanto, é cuidadoso ao relacionar plantas a outros seres vivos. Para ele, as capacidades dos vegetais devem ser conhecidas e estudadas por suas características próprias. "Não devemos antropomorfizar as plantas. E é importante notar que as plantas têm um sistema nervoso diferente dos animais", afirma o pesquisador.
Defesa vegetativa — Plantas, afinal, têm maneiras especiais de enfrentar desafios. Martin Heil, biólogo do Centro de Investigação e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional do México, costuma dizer que o principal valor dos vegetais é sua maneira inusitada de lidar com os problemas. "É preciso evitar a impressão de que os vegetais seriam mais valiosos se fossem mais similares a nós", diz o pesquisador. "É fascinante ver o quanto as plantas são muito mais ativas do que pensávamos e desenvolveram milhões de estratégias que as ajudam a sobreviver a condições ambientais complexas e incertas."
Heil começou a estudar há quase vinte anos, na Alemanha, os mecanismos extremamente sofisticados que folhas e ramos desenvolveram para driblar sua falta de mobilidade e escapar de predadores. Nos últimos meses, descobriu como funciona a clássica associação entre plantas e as formigas que as defendem de pragas e animais herbívoros como vacas e cavalos. “Os vegetais manipulam os insetos e os deixam sem outra alternativa para buscar alimento”, diz o pesquisador. Isso acontece por meio de elementos químicos secretados pela planta que “viciam” as formigas e fazem delas uma verdadeira tropa de defesa.
Nos próximos meses, o pesquisador entrará em um time de especialistas em imunologia para descobrir como folhas e ramos respondem a agressões externas. "Nesse contexto, plantas e humanos são realmente semelhantes. Nós usamos exatamente os mesmos mecanismos de percepção de ferimentos e agressões", diz.

As recém-descobertas habilidades vegetais

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Linguagem

Uma das formas de as plantas se comunicarem é por meio de compostos orgânicos voláteis (VOC), que viajam pelo ar. Nos anos 1980, dois estudos, um deles publicado na revista "Science", mostraram evidências de que esses químicos serviam para a comunicação vegetal. Dez anos depois, o biólogo Edward Farmer, da Universidade de Lausanne, na Suíça, mostrou como, em laboratório, artemísias emitiam grandes quantidades de metil jasmonato ao serem atacadas por insetos. Esse composto, recebido por folhas de tomate, fazia com que o fruto ficasse mais resistente a pragas — ele passava a produzir moléculas que, consumidas pelos insetos, interrompem sua digestão. A última comprovação de que a linguagem vegetal ocorre por meio dos VOCs veio no fim de 2013, com uma pesquisa publicada no periódico "Ecology Letters". Ela mostrou que, em condições naturais, as folhas que recebem esses químicos de vizinhas feridas tornam-se mais resistentes a herbívoros.
 
Outra maneira com que as plantas "falam" umas com as outras foi mostrada em um estudo de 2010, publicado na revista "Plos One". Ele explica como um pé de tomate infectado por uma doença avisa os outros por meio de micorrizas, fungos que surgem nas raízes. Ao lado das micorrizas, os tomates produzem enzimas defensivas, tornando-se mais resistentes a doenças. Os pesquisadores concluíram que esse pode ser um tipo de comunicação vegetal subterrâneo.
Nova etapa — Em conjunto, todos esses estudos estão provocando uma verdadeira revolução na compreensão das plantas. Desde a Antiguidade, quando o filósofo grego Aristóteles (século IV a. C.) classificou as plantas como seres entre os vivos e os não-vivos — daí o sentido da palavra "vegetativo" — elas amargam a penúltima posição na evolução. Estão entre os minerais e os animais, classificadas como criaturas passivas, que apenas sofrem os golpes do meio ambiente.
Relegadas a esse lugar, o interesse sobre seu funcionamento chegou tardiamente. Foi só nos anos 1960 que todas as etapas da fotossíntese, com suas fases clara e escura, foram desvendadas pelos cientistas. "De certa forma, ainda estamos na Antiguidade, acreditando que as plantas são insensíveis. Já sabemos que, de um mesmo ancestral comum, evoluíram plantas e animais", diz o biólogo Marcos Buckeridge, professor de fisiologia vegetal do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). "É preciso dar a elas um lugar ao lado dos animais."
Buckeridge trabalhou por vinte anos no Instituto de Botânica de São Paulo e, pesquisando plantas como o jatobá e o pau-brasil, percebeu que elas têm sistemas inteligentes para se adaptar ao meio ambiente e escolher as melhores opções para sua sobrevivência. "Se inteligência é a capacidade de se reconhecer como indivíduo e de tomar as melhores decisões, de acordo as experiências vividas e condições ambientais, então as plantas são inteligentes", afirma o pesquisador.
Diversos estudos publicados ao longo dos últimos dez anos provaram que um vegetal se reconhece como um ser único e percebe quando outras plantas ou animais tentam invadi-lo. Além disso, relaciona variáveis como níveis de água e luz e, de acordo com o que viveu no passado, toma decisões. Escolhe crescer para um ou outro lado ou abandonar ou manter suas folhas para economizar energia. "Com todas essas descobertas, não consigo ver diferenças nessa habilidade inteligente em humanos ou vegetais", afirma Buckeridge.
Cérebro descentralizado — O que torna um e outro diversos é o tipo de processamento de informações. Árvores e arbustos, devido a sua falta de locomoção, desenvolveram um sistema descentralizado — diferente do animal, que é localizado em órgãos como o cérebro. O processamento vegetal de informações é semelhante a uma rede de inteligência artificial, como em computadores. Seus sensores, que captam luzes de diferentes intensidades (como nossos olhos) ou sons delicados como o movimento aquático dentro das células (como nossos ouvidos), estão espalhados por todo o vegetal. 
“Plantas leem ao menos vinte parâmetros diferentes do ambiente e integram toda essa informação sensorial a suas células e tecidos para responder de maneira inteligente – senão, elas não sobreviveriam. Isso requer memória, aprendizado, uma forma de cognição. Mas é preciso lembrar que elas têm sua própria versão dessas habilidades, ditadas por sua vida vegetal”, afirma Frantisek Baluska, biólogo da Universidade de Bonn, na Alemanha e um dos fundadores do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal, em Florença, na Itália (Leia a entrevista completa com Baluska neste domingo).
Dessa maneira, um vegetal age por meio de uma reunião de sistemas inteligentes que dirige suas atitudes. "Cada ramo ou folha é uma unidade mais ou menos autônoma que se une para formar o todo da planta. Como uma confederação", diz Buckeridge.
Ética — Intencionalmente, o objetivo dos pesquisadores é borrar as fronteiras entre os reinos mineral, vegetal e animal. Essa visão hierárquica da natureza — criada pelo botânico sueco Carlos Lineu no século XVIII, espelhada nos grandes impérios europeus — deu lugar a uma visão mais democrática da natureza na área científica. "Passamos de uma visão cósmica centrada no homem para outra centrada no animal. Agora, estamos caminhando para um sistema que será centrado na vida", diz Buckeridge.
O próximo passo será decidir o que fazer com essas informações que colocam os vegetais em um espaço muito próximo a nós. Da mesma forma que descobertas mostrando que animais sentem dor e têm sistemas biológicos próximos aos humanos suscitam a discussão sobre o uso que fazemos deles, também a forma de utilizar as plantas no futuro, a depender desses pesquisadores, será uma questão ética. "O problema vai deixar de ser se esses seres sofrem ou não ou se têm memória. Eles sentem e lembram. O que ainda vamos precisar decidir é nosso papel e responsabilidade frente a seres que colocamos a nosso serviço. Será um problema moral para as próximas gerações", diz Buckeridge.

Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/a-inteligencia-das-plantas-revelada?utm_source=redesabril_veja&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_veja

Empreendimentos ameaçam emparedar Parque Burle Marx e cortar 5 mil árvores


Última reserva de Mata Atlântica às margens do Rio Pinheiros já tem plantas com marcação para derrubada



BRUNO RIBEIRO, DIEGO ZANCHETTA - O Estado de S.Paulo

A última reserva de Mata Atlântica às margens do Rio Pinheiros, na zona sul de São Paulo, está marcada para morrer. São cerca de 5 mil árvores, numeradas uma a uma, com placas de ferro, em uma área de proteção ambiental de 717 mil metros quadrados, vizinha do Parque Burle Marx, no Panamby.

Terrenos de 717 metros quadrados estão em área de proteção ambiental permanente - Sergio castro/Estadão
Sergio castro/Estadão
Terrenos de 717 metros quadrados estão em área de proteção ambiental permanente
Um dos terrenos com mata fechada ainda abriga cursos d'água e espécies raras de árvores, algumas com mais de 50 anos. Segundo representação feita por moradores da região ao Ministério Público Estadual (MPE), esse respiro verde vai dar lugar a dois empreendimentos com 16 torres, criando um paredão ao redor do parque, tombado pelo patrimônio histórico desde 1994.
O promotor do Meio Ambiente José Roberto Rochel instaurou inquérito civil para apurar denúncia de que o desmatamento teve início no mês passado. A área pertencia ao Fundo Imobiliário Panamby, gerido pelo Banco Brascan, e foi fatiada em duas partes: uma delas foi vendida para a Cyrela e outra para a Camargo Corrêa.
Um alvará para nova construção na parte do terreno que pertence à Camargo Corrêa já tramita na Prefeitura. Em julho de 2013, o governo indeferiu um pedido para obras na área, mas a empresa continua tentando obter a licença.
As duas incorporadoras confirmam a intenção de ocupar os terrenos, mas garantem que vão respeitar a legislação ambiental.
Os terrenos estão em área inundável de várzea e eram parte da bacia do Rio Pinheiros. Os registros do Departamento de Áreas Verdes (Depave) da Prefeitura apontam os terrenos como de proteção permanente. Mesmo assim, em 2003 o governo municipal concedeu uma autorização para a edificação da área. No caso da Camargo Corrêa, são necessárias ainda as licenças ambientais para o início do desmatamento.
A Cyrela ainda não fez o pedido de licença para construção no terreno que fica bem na frente do Parque Burle Marx. Mas moradores vizinhos da área relatam ao MPE, com fotos e vídeos, um suposto desmatamento que teria sido iniciado em fevereiro pela empresa Agrotexas Ambiental, que nega a acusação.
Roberto Delmanto, advogado que representa três associações de moradores da região e morador do Panamby, conseguiu fotos e plantas do megaempreendimento planejado na área - seriam torres e também um shopping center.
"Quem entra na floresta do terreno observa claramente que estão abrindo clareiras, para tentar descaracterizar a Mata Atlântica. Isso é uma prática comum do mercado antes de fazer o pedido de licença. Aí, quando vier alguém da Prefeitura fazer o laudo das espécies, vão ver bem menos árvores", afirma o advogado.
Ameaça. Moradores do Morumbi temem os riscos do corte de mais de 5 mil árvores em uma área onde já foi autorizado, em junho do ano passado, a retirada de 1.787 árvores para a construção do Condomínio Parque Global, empreendimento da empresa Bueno Neto. Eles estão enviando à Prefeitura laudos feitos por botânicos e geólogos que apontam a impermeabilização de uma área inundável às margens do Rio Pinheiros.
"Essa é a última faixa de mata nativa que existe entre a Represa do Guarapiranga e o Rio Pinheiros. É uma floresta que pertence a todos, que não pode ser transformada em jardins particulares", alega a urbanista Helena Caldeira, da Associação Morumbi Melhor.
"A Prefeitura não pode permitir que o mercado imobiliário traga para esse lado do Pinheiros, em uma área de preservação, o mesmo adensamento que foi feito do outro lado, ao longo da Avenida Chucre Zaidan", diz a urbanista.
As outras duas entidades que tentam barrar os empreendimentos no entorno do Parque Burle Marx são o Defenda São Paulo e a Associação Amigos do Panamby. Para frear a autorização aos novos prédios, elas ainda apontam como agravante o fato de a região do Panamby ter liderado o desmatamento autorizado em São Paulo na última década - o distrito da Vila Andrade, onde está o bairro, perdeu milhares de árvores para dar lugar a novos prédios desde janeiro de 2005.
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,empreendimentos-ameacam-emparedar-parque-burle-marx-e-cortar-5-mil-arvores,1138788,0.htm

sexta-feira, 7 de março de 2014

Com gaviões e falcões, Galeão não tem colisão de pássaro e avião há 3 meses

Jacyara Pianes

Uma turma de 16 aves de rapina – entre falcões e gaviões – está se destacando entre os funcionários mais dedicados do Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, no Rio de Janeiro. Juntos, eles participam do trabalho de falcoaria iniciado em 2013, que, com a ajuda dessas aves, tem a missão de afugentar e capturar pássaros que rodeiam a região e podem colidir com as aeronaves.
O resultado tem sido tão eficiente que há três meses o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) não registra colisões entre aviões e pássaros no aeroporto.
De acordo com o relatório de risco aviário de 2012 do Cenipa – o último disponível--, só naquele ano foram registradas 1.604 ocorrências de choque entre aves e aviões. E o Galeão estava em quinto lugar entre os aeroportos de todo o Brasil, com 67 colisões.
O primeiro lugar em colisões em 2012 foi Guarulhos, com 117 ocorrências, e o segundo foi o aeroporto internacional Juscelino Kubitschek, em Brasília, com 114. Eles não têm falcoaria. Já o terceiro lugar neste ranking é o Salgado Filho, em Porto Alegre, com 106 ocorrências. Este, assim como o Galeão, trabalha com a falcoaria. Além dos dois, apenas Pampulha, em Minas Gerais, conta com o trabalho permanente das aves de rapina, segundo a Infraero.
O caso mais famoso de acidente desse tipo aconteceu há cinco anos, em Nova York, nos Estados Unidos. Depois de se chocar contra um bando de pássaros, as turbinas de um avião perderam a potência e o piloto teve que realizar um pouso de emergência sobre o rio Hudson.

Com a nova vigilância, mais de 300 pássaros que colocavam em risco a segurança dos voos, principalmente durante pouso e decolagem, já foram remanejados. De acordo com Uitamar Abreu Júnior, falcoeiro e sócio do Cepar, depois de capturados, eles são identificados, passam por veterinários e são soltos no parque do Gericinó, em Nilópolis.
A coordenadora de Meio Ambiente do Galeão, Priscila da Silva Souza, conta que a falcoaria, já exercida em outros países e aeroportos do Brasil, chegou extensivamente ao Galeão em maio, mas que o Cepar (Centro de Preservação de Aves de Rapina), empresa terceirizada que executa o serviço, só teve a licença para capturar os pássaros –e não apenas afugentá-los-- em junho de 2013. "Desde que começou esse trabalho, já tem diminuído em 90% as aves vistas no sítio aeroportuário", diz.

Trabalhadores exemplares

Umas das aves de rapina do Galeão se destaca: a gavião Sora, de 700 g, sete meses de vida e instinto aguçado. Segundo Júnior, ela é a única da falcoaria brasileira que caça urubus –ave grande, sem predador natural, que leva maior risco à aviação por conta do porte (pesa cerca de 3 kg), sendo inclusive maior que o gavião. Sora já soma dez capturas em sua lista, número que ainda deve aumentar bastante.
Outro exímio trabalhador do aeroporto é Thor, um falcão de apenas 190 g e dois anos de vida, mais tranquilo no trato, mas também bom de serviço. Suas presas principais são os quero-queros –espécie que, em 2012, conforme o Cenipa, era a que mais havia colidido com as aeronaves, em cerca de 20% das ocorrências.
Segundo o falcoeiro e veterinário Danilo Braghero, as habilidades de falcões e gaviões são diferentes. A turma de Thor é menor e mais rápida. Além disso, concentra sua força no bico. Já a família de Sora é naturalmente maior e mais forte, com força principalmente nas garras.
Fonte: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/03/07/com-gavioes-e-falcoes-galeao-nao-tem-colisao-de-passaro-e-aviao-ha-3-meses.htm

Ambições hidrelétricas do Peru tem Brasil como parceiro


Barbara Fraser 

Vilcanota-1O rio Vilcanota é o cenário da disputa entre dois projetos de hidrelétricas: uma grande ou várias pequenas. Foto: Barbara Fraser
Santa Teresa, Peru -- O amanhecer ainda não havia despontado sobre as montanhas que ladeiam o rio Vilcanota, mas as pessoas acampadas já estavam se dirigindo às águas termais de Cocalmayo. Elas se banham sob a cascata de águas mornas que serve de chuveiro e depois boiam nas lagoas rasas enquanto a água quente escorre em fios d'água pelas fendas da parede rochosa para subir borbulhando do solo pedregoso.
Embora os banhos sejam tranquilos bem cedo de manhã, ao longo do dia atrairão multidões de mochileiros prontos para aliviar seus músculos doloridos depois de um dia de caminhadas pelas ruínas de Machu Picchu.
Muitos desses turistas ainda permanecem por mais um dia ou dois em Santa Teresa, o que torna o turismo uma parte importante da economia da cidade. As fontes de água quente são a atração especial, segundo autoridades locais, que dizem que até 120 pessoas as visitam por dia.
O rio Vilcanota serpenteia abaixo de Machu Picchu, passa pelas lagoas térmicas de Santa Teresa até se tornar o Rio Urubamba e depois o Rio Amazonas. Ele também é o centro de um debate sobre energia, pois duas empresas ofereceram propostas concorrentes para utilizar o Vilcanota para gerar energia hidroelétrica.
Uma proposta envolve uma série de seis usinas de pequeno porte ao longo de uma faixa de 20 quilômetros de comprimento do rio abaixo de Santa Teresa, enquanto a outra propõe uma única grande represa e uma usina rio abaixo movida pela água que provém de um túnel através do morro atrás dos banhos térmicos.
Moradores locais estão divididos na questão. Alguns dizem que qualquer projeto seria bem-vindo se trouxer empregos e maior desenvolvimento para a área, enquanto outros temem que a construção de um túnel para canalizar a água para uma usina de grande porte corte o fluxo natural das águas térmicas para os banhos, impactando o turismo local.
Um país em busca de energia
Hydro-constructionConstrução de hidrelétrica rio acima à cidade de Santa Teresa, próxima a Machu Picchu. Foto: Barbara Fraser
O debate em Santa Teresa é apenas um de uma série de confrontos sobre a geração da hidroeletricidade na Amazônia peruana. Em um país onde a economia cresceu a uma taxa média de 6,5% na última década, as necessidades energéticas são projetadas para aumentar em 8,8% ao ano nos próximos cinco anos.
A maioria das usinas hidrelétricas em existência no país esteja localizada em locais altos nos Andes. Porém, as autoridades governamentais e empresas de energia estão cada vez mais procurando rios no flanco leste das montanhas, onde as encostas íngremes e os fluxos mais estáveis significam maior capacidade de geração.
Muitos dos seus esforços têm encontrado resistência das comunidades que seriam deslocadas pelas inundações, por parte dos críticos dos planos para gerar eletricidade para exportação aos países vizinhos e pelos ambientalistas, que dizem que as regulamentações atuais não levam em conta de forma adequada os impactos das represas nos ecossistemas da Amazônia.
"Todos queremos e precisamos de eletricidade, mas isso não significa que você precisa construir grandes represas com grandes impactos," disse Monti Aguirre da organização sem fins lucrativos International Rivers.
Potencial do rio Marañón
Aguirre passou uma semana no final de Agosto viajando ao longo de parte do Rio Marañón no norte do Peru. De sua cabeceira na altitude andina, o Marañón serpenteia descendo as encostas orientais dos Andes até a planície da Amazônia.
Em abril de 2011, o governo do então-Presidente Alan García anunciou um 'decreto supremo' declarando uma série de 20 represas e projetos de irrigação no Rio Marañón como sendo de "interesse nacional", uma designação que tem a intenção de acelerar os esquemas de desenvolvimento. Ambientalistas e especialistas em desenvolvimento rural ficaram alarmados com o espantoso número de projetos.
Embora a maioria destes projetos talvez nunca saia da prancheta, muitos estão indo em frente. A AC Energía, que é parte da empresa brasileira Odebrecht, já registrou uma análise de impacto ambiental para um deles, conhecido como Chadín 2. Um segundo projeto, o Cumba 4, está na fase de estudos.
Embora a abrangência do decreto supremo de Alan Garcia tenha surpreendido a todos, o Marañón está na mira da geração de eletricidade desde os anos 70, quando o governo alemão financiou um estudo exaustivo do potencial de geração de energia elétrica dos rios peruanos.
Aquele estudo calculou que os rios do Peru poderiam em teoria gerar 200.000 megawatts de eletricidade, embora tenha observado que somente cerca de um terço desse volume teria viabilidade econômica. Mesmo assim, é uma quantidade imensa quando se considera que a capacidade instalada do país de geração de energia elétrica na época era de 2.516 megawatts, dos quais 56% eram de fontes hídricas e 44% térmicas.
Ao final de 2011, a demanda por eletricidade no Peru era um pouco mais de 5.000 megawatts por ano, enquanto que a capacidade de geração instalada era de cerca de 8.700 megawatts, sendo em torno de metade proveniente de hidrelétricas e a outra metade de combustíveis fósseis, particularmente do gás natural do campo de Camisea no sudeste do Peru.
O Ministério das Minas e Energia projetou que a demanda de eletricidade irá aumentar em média 8,8% entre 2013 e 2017. Isso significa produzir outros 4.000 megawatts nos próximos cinco anos. De acordo com os planos do governo, metade disso será gerada pelas hidrelétricas, embora a longo prazo, haja previsão do gás se tornar o meio preponderante de geração.
Localizado no Rio Marañón entre os departamentos do Amazonas e Cajamarca, estima-se que Chadín 2 gere 600 megawatts de eletricidade. O planejamento requer uma represa com 175 metros de altura para criar um reservatório que inundaria uma área de 32,5 quilômetros quadrados. O projeto exigiria um investimento estimado em 1,2 bilhões de dólares e levaria cinco anos para ser construído.
Chadín 2 causaria o deslocamento de menos de 1.000 pessoas que vivem em pequenas comunidades agrícolas ao longo do rio em três províncias – Celendín em Cajamarca, e Luya e Chachapoyas no Amazonas. O acesso ao local é difícil, segundo o engenheiro eletromecânico José Serra, que entrevistou famílias na área e está preparando uma análise de custo-benefício do projeto para um grupo de organizações sem fins lucrativos.
"Na verdade, é um desfiladeiro onde não há estradas," disse Serra. "A única forma de se chegar lá é no lombo de mulas, e é uma jornada de oito horas morro abaixo." Agricultores cultivam árvores frutíferas, mas a falta de estradas torna impossível fazer com que seus produtos cheguem ao mercado, disse ele. Alguns também plantam coca, a matéria-prima da cocaína, que tem compradores imediatos.
Em uma comunidade onde há disputas de vêm longa data entre famílias, as opiniões sobre a represa também estão divididas. Pessoas cujas terras seriam inundadas se opõem ao projeto, disse Serra. A oposição também vem de organizações da sociedade civil em Calendín, que também se opõem à introdução de minas de ouro e cobre planejadas para a área.
Esses grupos conectam as duas questões, argumentando que a eletricidade de Chadín e a usina proposta de Cumba 4 (que inundaria uma área de tamanho similar e que geraria 825 megawatts) servirá de suporte à indústria da mineração, em vez de fornecer energia para as residências locais.
Serra descobriu que as comunidades no lado do Amazonas do rio tinham em geral uma atitude mais positiva sobre o projeto, especialmente sobre a possibilidade da estrada até a represa tornar mais fácil o transporte para entrar e sair da região.
Uma questão ainda não resolvida envolve a relocação das pessoas cujas terras seriam inundadas. O governo não indicou como eles seriam compensados ou onde seriam reassentados. É urgente uma resposta para essa questão, disse Aguirre, pois há poucas terras não reclamadas naquela área.
"As pessoas não possuem informações," disse ela. Embora uma compensação de milhares de dólares possa soar como bastante dinheiro para famílias acostumadas a uma agricultura de subsistência, "Elas não sabem o quanto sua maneira de viver irá mudar. E esta pode ser a decisão mais importante que farão em suas vidas, pois afetará também o modo de vida de seus filhos".
Brasil mira rios peruanos
Inambari-bridgePonte próxima à cidade de Inambari, que no futuro pode ser realocada para a construção de hidrelétrica com o mesmo nome. Foto: Barbara Fraser
Uma pergunta semelhante veio à tona vários anos atrás na parte sul do Peru, onde os planos para a enorme hidrelétrica de Inambari foram paralisados em 2011.
Inambari se tornou o foco das atenções depois que o Peru assinou um acordo em 2010 que abriu caminho para o desenvolvimento dos projetos de hidrelétricas para exportar energia ao vizinho Brasil, cujas necessidades de energia tem despertam atenção aos projetos em andamento no Equador, Bolívia e também no Peru.
A represa de Inambari foi planejada para se estender entre dois elevados penhascos na confluência dos rios Inambari e Araza, que fluem da floresta de nuvens no departamento de Cusco e desembocam no rio Madre de Dios, que se junta ao Rio Madeira, no Brasil, chegando enfim a fluir para o rio Amazonas.
O custo desse projeto excederia os $4 bilhões de dólares e geraria 2.200 megawatts de eletricidade. O reservatório da enorme represa teria 378 quilômetros quadrados, 10 vezes o tamanho do reservatório de Chadín 2 ou Cumba 4 no rio Marañón. Além de inundar uma floresta de nuvens primária, fazendas, plantações de coca e áreas reclamadas ilegalmente para mineração de ouro, o reservatório deixaria debaixo d'água trechos da recentemente asfaltada rodovia Interoceânica para o Brasil.
Como no vale Marañón, moradores locais que seriam inundados pela represa de Inambari ficaram divididos na questão. Alguns, na cidade de Inambari, um amontoado de casas de madeira ao lado de uma ponte que cruza o rio logo abaixo do local da represa, disseram que gostariam de se mudar para um novo local, desde que o governo ou a empresa brasileira forneça as terras.
Outros, principalmente no departamento de Puno, resistiram. Os ambientalistas também se opõem ao projeto e fazem duras críticas às autoridades, incluindo ao ministro do Meio Ambiente Antonio Brack, que disse que a área estava longe de ser intocada e que a oposição era na verdade orquestrada pelos plantadores de coca, garimpeiros ilegais e especuladores de terras.
Embora o acordo de 2010 com o Brasil não mencione projetos específicos, as empresas brasileiras mostraram interesse em cinco locais, quatro dos quais foram também identificados no estudo pago pela Alemanha três décadas atrás.
Além de Inambari, as empresas têm interesse em Pakitzapango, no Rio Ene na área central do Peru, dois locais no Rio Tambo, e o Pongo de Mainique, uma ravina onde o Rio Urubamba passa velozmente entre íngremes paredões rochosos salpicados de samambaias e trepadeiras antes de desembocar na planície Amazônica.
Impactos e polêmicas
Vilcanota-2O rio Vilcanota serpenteia por vales andinos em um trecho livre de barragens. Foto: Barbara Fraser
Esses projetos gerariam juntos cerca de 6.000 megawatts de eletricidade e se tornaram polêmicos.
Críticos da negociação argumentaram que o Peru é que arcaria com os custos sociais e ambientais ao construir os projetos, enquanto que o Brasil colheria a maioria dos benefícios econômicos. E caso a necessidade energética do Peru aumentasse nas próximas três décadas, disseram, o país provavelmente não seria capaz de renegociar o pacto para manter mais a energia em seu território.
Os ambientalistas apontaram os impactos – tanto os conhecidos como os desconhecidos – de se represar rios na parte alta da bacia Amazônica. Os rios que despencam pela encosta leste dos Andes carregam sedimentos para as terras baixas em seu pulso cíclico de inundação. As águas dessas enchentes sobem e se espalham pelas florestas das terras baixas, depositando seus sedimentos ricos em nutrientes o que permite que peixes possam desovar em lagos que normalmente não estão conectados a um rio durante a época da vazante.
Regular o fluxo de rios para a geração de energia, ao invés de seguir o ciclo natural de enchentes, afetaria todo o ecossistema rio abaixo, de acordo com os ecólogos tropicais. As represas também afetariam as rotas migratórias dos peixes Amazônicos que nadam rio acima a partir das terras baixas para desovar nos riachos mais rápidos localizados na porção superior da bacia.
Estudos realizados nas terras baixas do Amazonas também mostram que a vegetação inundada nos reservatórios atrás de grandes represas emite gases de efeito estufa que contribuem para o aquecimento global. A quantidade depende do tamanho do reservatório, no entanto, e não há dados suficientes sobre as regiões mais altas da bacia Amazônica porque não há projetos para hidrelétricas de grande porte naquela área.
A represa de Inambari provavelmente também reteria sedimento contaminado com mercúrio provindo da mineração ilegal de ouro rio acima, dizem os ambientalistas.
Além dos impactos ambientais, o projeto de Pakitzapango teria inundado mais de uma dúzia de comunidades indígenas Asháninka na área onde aquele povo sofreu anos de revoltas, violências e mortes durante a violência política das décadas de 80 e 90.
Aquelas comunidades, sob a liderança de Ruth Buendía, presidente da CARE, uma organização de comunidades Asháninka no Rio Ene, se opuseram firmemente ao projeto. Essa pressão fez a Odebrecht (que detinha uma concessão temporária para estudos de viabilidade) anunciar em 2010 que não estava mais interessada em construir as usinas de Pakitzapango ou Tambo 40.
Concessões temporárias para outros projetos, incluindo o Inambari, também perderam sua validade, mas observadores acham que algumas ou todas elas sejam reeditadas no futuro.
Inambari é de particular interesse para empresas brasileiras, não somente pelo seu enorme potencial de geração de energia como também por que poderia ser usada para regular o fluxo da água do Rio Madre de Dios para as represas à jusante no rio Madeira, no Brasil.
Pequenas hidrelétricas perto de Machu Picchu
As cinco represas visadas pelo acordo Peru-Brasil seriam megaprojetos, enquanto as que estão em disputa no Rio Vilcanota, perto de Santa Teresa e ao lado de Machu Picchu, são mais modestas.
Uma cidade pacata situada em um penhasco acima do vale que onde corre o rio Vilcanota, Santa Teresa desperta no final da tarde quando os turistas que percorreram a rota mais econômica para as famosas ruínas retornam de um dia de caminhadas e explorações para descansar, beber e comer, ou ficar "de molho" nas fontes termais e pernoitar em um dos albergues que surgiram no entorno.
Nos últimos anos, Santa Teresa ressurgiu das cinzas de uma tragédia para entrar no circuito turístico. Parte da cidade foi destruída por um deslizamento de terra durante as chuvas pesadas no início de 1998, e as partes mais baixas dela, incluindo as fontes termais, foram vítimas novamente da enchente de 2010. Os banhos foram reconstruídos e os lagos cristalinos não dão qualquer indicação dos desastres do passado.
hot-springs-1Santa Teresa já foi arrasada duas vezes por enchentes, mas se reconstruiu e sua economia vive em boa parte dos turistas que visitam suas fontes termais. Fotos: Barbara Fraser
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Os turistas que fazem a caminhada de meia hora – ou que tomam um táxi – para as fontes termais são recompensados com uma visão panorâmica do rio, das montanhas que se elevam atrás dele, e dos campos plantados com cafezais e árvores frutíferas.
Localizada rio acima a partir da cidade, a usina hidrelétrica de Machu Picchu é o ponto inicial para uma caminhada até as ruínas Incas. A empresa Luz del Sur é uma das maiores distribuidoras de energia do Peru, cujo principal acionista é a norte-americana Sempra International. Ela está construindo mais uma usina, pouco abaixo no rio, em um local conhecido como Santa Teresa 1, e também conduz estudos de viabilidade para outra usina (rio abaixo a partir do município de Santa Teresa) que receberia energia da água canalizada do Rio Vilcanota, através de um túnel na montanha acima das fontes termais.
Enquanto isso, a empresa Andean Hydro, propôs uma série de seis usinas de pequeno porte no mesmo trecho de rio, dizendo que isso geraria quase a mesma quantidade de eletricidade, mas teria um impacto menor, desviando o rio por distâncias que vão de meio quilômetro a dois quilômetros.
Moradores locais se dividiram em relação a essas propostas concorrentes.
"Eles não podem construir isso," disse um jovem que estava cobrando a taxa de entrada para as fontes termais, comentando sobre a construção do túnel. "Vai arruinar os banhos."
Noe Celestino Carrasco se preocupa com o projeto de Luz del Sur que poderá secar não somente as fontes termais, mas também todo o leito do rio. Como presidente da Frente de Defesa dos Interesses de Santa Teresa, ele disse que desviar a maior parte do fluxo do rio para um túnel através da montanha deixaria apenas um filete do que agora é o curso normal do Vilcanota, afetando o microclima da área onde ele faz seus plantios.
Durante a estação seca, "O que restaria? Um esgoto," disse ele. "Os banhos termais desapareceriam, e o turismo depende desses banhos. O turismo beneficia a nós todos, inclusive os fazendeiros."
Abel Matto, diretor da agência de turismo do governo municipal de Santa Teresa rejeita essas preocupações, dizendo que são o resultado de "má informação" ["mala información"].
Angel Estrada, que dirige um hotel em Santa Teresa, disse que não se importa qual proposta será implementada – uma usina grande ou uma série de pequenas – "desde que não afete os banhos e deixe algum benefício para o município. Seria bom para o desenvolvimento."
Disputas entre concorrentes
Enquanto isso, as empresas concorrentes publicamente criticam-se mutuamente. Stephen McCaughey, diretor da Inti Renewable Energy, que é parte da Andean Hydro, diz que a proposta de várias represas pequenas teria um impacto menor e geraria um excedente de energia que a comunidade poderia revender para a distribuidora. Além disso, deixaria as fontes termais intocadas.
Mas para Mario Gonzales del Carpio, gerente de desenvolvimento de Luz del Sur, o plano rival foi projetado para evitar um estudo de impacto ambiental completo, pois os requisitos são menos rígidos para usinas que geram menos de 60 megawatts cada. Embora todas as usinas do Andean Hydro estejam nesta categoria, McCaughey nega que foram projetadas para escapar da análise mais profunda.
Custo e transparência
As acusações recíprocas sobre os dois projetos sublinham um ponto central no debate sobre usinas hidrelétricas que empregam os métodos de "desvio" ou "de fio d´água" em oposição a grandes represas como a de Inambari. Ambos os projetos propostos para Santa Teresa são considerados usinas de fio d´água, porque redirecionariam a água do rio, canalizando-a para turbinas e depois retornando ao leito do rio, rio abaixo.
Nenhum deles desviaria o rio por inteiro; a regulamentação peruana define uma quantia mínima de água a ser deixada no canal original. As usinas menores desviariam água por distâncias mais curtas, mas isso não significa que estariam livres de impactos ambientais.
"As pessoas gostam de pensar sobre as coisas como sendo boas ou más, mas o fato é que há escalas e concessões mútuas," disse Peter Brewitt, um candidato a doutorado em estudos ambientais na Universidade da Califórnia – Santa Cruz.
"Represas menores, que utilizam o método de passagem dos rios não possuem alguns dos efeitos que as represas grandes com amplos reservatórios teriam," disse Brewitt, que estuda a remoção de represas nos Estados Unidos. "Ao mesmo tempo, elas não são uma panaceia. Não se pode simplesmente substituir uma represa grande com um punhado de represas menores e ter um rio natural."
"Temos de por um limite no desenvolvimento de cada rio," disse Aguirre, da International Rivers. "O pensamento legado do último século sentencia que qualquer rio que não esteja desenvolvido é um rio desperdiçado. Trabalhar dentro desta mentalidade significa que todo rio será desenvolvido."
Grupos da sociedade civil no Peru querem que os planejadores do governo levem em conta as necessidades totais de energia do país, o mix de tecnologias para atender a essa demanda e o impacto combinado dos projetos de infraestrutura de energia, especialmente na Amazônia, disse Carmen Heck da Sociedade Peruana de Direito Ambiental, que coordena o Coletivo Amazônia e Usinas Hidrelétricas. O coletivo também pediu mais transparência e informações nas etapas de planejamento e uma prévia consulta e consentimento de parte das comunidades indígenas que seriam afetadas, especialmente se um projeto significar o deslocamento dessas comunidades.
 Fonte: http://www.oeco.org.br/reportagens/28070-ambicoes-hidreletricas-do-peru-tem-brasil-como-parceiro

quinta-feira, 6 de março de 2014

Drone filma baleias e golfinhos em alto mar

Com o recurso a um drone, o capitão Dave Anderson registou um pouco daquilo que é a vida marítima. No vídeo, é possível ver um grande grupo de golfinho e baleias a nadar e saltar no oceano.


Vídeo: http://www.noticiasaominuto.com/mundo/183848/drone-filma-baleias-e-golfinhos-em-alto-mar#/615/0

terça-feira, 4 de março de 2014

sábado, 1 de março de 2014

Populações de botos do rio Madeira podem sofrer com construções de hidroelétricas

A pesquisa foi desenvolvida pelo Inpa e pela Ufam com o objetivo de identificar a distribuição das espécies e definir estratégias de conservação.


Boto-vermelho ou boto-cor-de-rosa é uma espécie ameaçada
Boto-vermelho ou boto-cor-de-rosa é uma espécie ameaçada (Divulgação/ INPA)
Até recentemente pesquisadores pensavam que duas das quatro espécies de golfinhos da Amazônia, os botos-vermelhos (Inia boliviensis eI.geoffrensis), tinham como principais limites à sua distribuição a sequência de cachoeiras e corredeiras do alto rio Madeira. Mas para surpresa dos pesquisadores, a espécie pertencente aos rios da Bolívia (pelo menos na teoria), ultrapassa esses limites e se encontra em áreas abaixo das corredeiras.
A constatação foi feita no estudo da doutora em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Waleska Gravena, em colaboração com as pesquisadoras do Inpa Maria Nazaré da Silva e Vera da Silva, e os pesquisadores do Laboratório de Evolução e Genética Animal da Universidade Federal da Amazonas (Ufam), Tomas Hrbek e Izeni Farias.
“Foi observado que a espécie Inia boliviensis ocupa não somente os rios da Bolívia, acima das corredeiras, mas também grande parte do rio Madeira, sendo encontrada até no município de Borba (AM), a 870 quilômetros abaixo das corredeiras”, explica Gravena.
O estudo ocorreu nos rios Madeira, Mamoré e Guaporé – estados de Rondônia e Amazonas - onde existia, até recentemente, uma sequência de 18 corredeiras e cachoeiras que por muitos anos foram consideradas barreiras à distribuição das duas espécies.
Essa descoberta preocupa os pesquisadores porque na região foram construídas duas usinas hidroelétricas, nas corredeiras de Santo Antônio e Caldeirão, UHE Santo Antônio e UHE Jirau, respectivamente. Essas modificações, segundo Gravena, podem interferir na conservação dos botos que habitam a região, já que agora as populações de botos da Bolívia e do Brasil ficaram isoladas.  
A maioria dos animais estudados foi identificada, a partir de sequências de DNA mitocondrial, como pertencentes à espécie Inia boliviensis. A espécie que teoricamente ocorreria logo abaixo das corredeiras, I. geoffrensis, na verdade, ocorre somente nos últimos 200 km do rio Madeira.
“Ainda não encontramos qual a barreira entre as espécies, já que na localidade onde são encontradas as duas espécies não existem nenhuma barreira física que impeça o encontro delas. Apesar das corredeiras não funcionarem como barreiras efetivas, podemos afirmar que elas funcionavam como uma barreira semipermeável, já que os animais descem, mas não conseguem subir”, complementa Gravena.
Conforme Gravena, a UHE Santo Antônio fechou suas comportas em agosto de 2011 e a UHE Jirau em dezembro de 2012. As duas usinas agora mantêm represadas as águas do rio Madeira, formando reservatórios de aproximadamente 350 quilômetros quadrados e 303 quilômetros quadrados. “Esses reservatórios já submergiram oito das 18 corredeiras existentes nessa região, transformando completamente o ambiente”.
Em termos de conservação, aponta Gravena, a captura acidental ou deliberada parece ser a principal fonte de ameaça aos botos nos vários países amazônicos, mas na região das corredeiras do rio Madeira, a mudança nesses ecossistemas associada à construção de hidroelétricas e barragens tem sido a principal fonte de risco para os golfinhos de água doce, principalmente devido à fragmentação das populações naturais.
Saiba mais
A Amazônia possui quatro espécies de golfinhos. Três delas são os botos-vermelhos da família Iniidae (I. geoffrensis, I. boliviensis e I. araguaiaensis) e uma quarta espécie é o tucuxi, boto da família Delphinidae (Sotalia fluviatilis). O I. araguaiaensis foi descoberto recentemente.
Um dos menores golfinhos do mundo, o boto tucuxi alcança no máximo 150 centímetros de comprimento e 53 kg, que é a única exceção da típica família de golfinhos marinhos a viver em água-doce.
Já o boto-vermelho quando nasce é cinza escuro e fica mais claro e rosado à medida que cresce. Os machos são bem maiores e mais robustos do que as fêmeas e chegam a medir 250 cm e pesar 200 kg. As fêmeas raramente ultrapassam 220 cm e 155 kg.

Fonte: http://acritica.uol.com.br/amazonia/Populacoes-Madeira-sofrer-construcoes-hidroeletricas_0_1093090722.html