quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
A tragedia do desmatamento ainda continua
Paulo Barreto
O Brasil alcançou a menor taxa de desmatamento de sua história: foram desmatados 4.656 quilômetros quadrados de floresta entre agosto de 2011 a julho de 2012. Porém, a continuação do desmatamento ainda é uma tragédia, mata milhões de árvores e animais e emite poluição duas vezes mais que todos os carros leves circulando no Brasil.
O número de árvores derrubadas no período de menor desmatamento da história é 20% maior do que o tamanho da população brasileira: 232, 8 milhões foram cortadas nesse período.
Veja a apresentação no link: http://www.oeco.com.br/multimidia/biblioteca/26701-a-tragedia-do-desmatamento-ainda-continua
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Pesquisa da USP mostra que resíduos de antibiótico veterinário atingem o solo
A presença de resíduos de antibióticos de uso veterinário no solo e em cama de frango (revestimento sobre o qual ficam os animais no criadouro) é comprovada por pesquisa do engenheiro agrônomo Rafael Leal no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba.
Os compostos podem favorecer a resistência de micro-organismos aos antibióticos e se acumular em vegetais usados no consumo humano. O pesquisador aponta que ainda não há legislação sobre limites de resíduos no ambiente e recomenda o controle e o monitoramento das substâncias em uso na criação de animais.
Os resíduos de antibióticos atingem o ambiente de forma direta (fezes e urina de animais que pastam) ou indireta (utilização de esterco animal na adubação de culturas). A pesquisa adaptou e validou uma metodologia analítica para quantificação de resíduos de quatro tipos de antibióticos, as fluoroquinolonas (norfloxacina, ciprofloxacina, danofloxacina e enrofloxacina), aplicada em amostras de solo, cama de frango e solo fertilizado com cama de frango.
“Também foi avaliado o potencial de sorção e dessorção dos resíduos, ou seja, a capacidade de serem absorvidos e eliminados dos solos, além da influência dos atributos de solo no potencial de sorção de fluoroquinolonas e sulfonamidas em solos representativos do Estado de São Paulo”, diz Leal.
A orientadora do estudo foi a professora Jussara Borges Regitano, do Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba. Foram avaliadas 46 amostras de cama de frango e 11 de solo, coletadas em granjas e áreas agrícolas em Piracicaba (interior de São Paulo) e sete municípios próximos, com importante atividade avícola. Todos os solos coletados apresentaram histórico de aplicação de cama de frango.
Impacto
Segundo o engenheiro agrônomo, a ocorrência dos resíduos pode impactar negativamente organismos aquáticos e terrestres (toxicidade crônica ou aguda), mas a questão mais complexa e preocupante é a possível influência no aumento da resistência de micro-organismos aos antibióticos. “As implicações da presença dos resíduos ainda são pouco conhecidas, pois começaram a ser sistematicamente investigadas somente a partir do ano 2000, e o Brasil, carece de pesquisas na área, ignorando possíveis efeitos no ecossistema local”.
Embora não haja uma relação direta de causa e efeito dos resíduos com a saúde humana, Leal observa que as concentrações transferidas ao solo pela aplicação de esterco animal podem favorecer a seleção de populações de micro-organismos resistentes. “Eles poderiam compartilhar a resistência com organismos patogênicos ao homem e reduzir a eficiência dos antibióticos de uso humano, mas não há evidências conclusivas a respeito”, ressalta. “Os resíduos também poderiam ser absorvidos e acumulados nos tecidos vegetais, causando riscos quando da colheita e consumo de alimentos de origem vegetal.”
De acordo com o agrônomo, não há limites estabelecidos para a presença de antibióticos no ambiente (solo, esterco animal, água subterrânea, água superficial, água potável, sedimentos, etc), tanto no Brasil quanto no exterior. “Isso reflete o fato dos estudos sobre o tema serem recentes, mas o estabelecimento de legislação a respeito é apenas questão de tempo”, afirma.
Leal ressalta que o uso prudente e criterioso de compostos antibióticos é a medida mais efetiva para a redução dos riscos ao homem e ao ambiente. “Na prática, isso não se restringe a apenas limitar a duração da pressão seletiva por meio da redução na duração do tratamento e no uso continuado de doses subterapêuticas, mas também inclui controlar os compostos em uso e fazer monitoramento ativo da incidência de resistência”, conclui.
Júlio Bernardes, da Agência USP
Fonte: http://www.ciclovivo.com.br/noticia.php/5913/pesquisa_da_usp_mostra_que_residuos_de_antibiotico_veterinario_atingem_o_solo/
Números do Deter de outubro disponíveis no InfoAmazônia
Com a divulgação dos dados do Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) referentes ao mês de outubro, ((o))eco criou um mapa interativo sobre os pontos de desmatamento na sua plataforma InfoAmazonia.
De acordo com o relatório, depois de dois meses de altas consecutivas, a taxa de desmatamento caiu em outubro, alcançando a cifra de 277 km² de desmatamento e degradação.
Esse número significa uma diminuição de 28% se comparada com o mês de outubro de 2011, quando foi registrado 386 km² de perda de floresta. Comparado com o desmatamento detectado no mês de setembro de 2012, o recuo foi de apenas 1%. Na tabela abaixo, a lista dos 10 primeiros munícipios com maior número de alertas.
Acesse os números:http://www.obt.inpe.br/deter/
Fonte: http://www.oeco.com.br/geonoticias/26700-numeros-do-deter-de-outubro-disponiveis-no-infoamazonia
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Acre lidera novo boom da borracha
O estado do Acre é pioneiro em uma abordagem de desenvolvimento que busca tirar o máximo proveito da floresta sem destruí-la.
O primeiro boom da borracha no Brasil, desencadeado pela invenção do carro, terminou abruptamente com o bem-sucedido cultivo de seringais na Ásia. O segundo, como fornecedor de borracha para os aliados da Segunda Guerra Mundial depois que o Japão cortou as suas fontes de borracha, mal durou até o fim da guerra. Ambas as ocasiões enriqueceram os proprietários dos seringais na Amazônia, às custas do trabalho escravo de famílias de seringueiros que curavam o látex. Agora, em regiões mais remotas da Amazônia, a borracha está ensaiando um tênue retorno. E desta vez, são os seringueiros que estão tentando escrever o roteiro.
O assassinato de Chico Mendes em 1988, o homem que liderou a luta dos seringueiros contra os madeireiros e pecuaristas na região, selou uma aliança entre seringueiros e ambientalistas. A morte de Mendes nas mãos de fazendeiros também plantou as sementes de mudança no Acre, estado natal de Mendes, governado desde 1999 pelo autoproclamado “governo da floresta”, como é conhecida a administração estadual. O governo do estado ajudou extrativistas a formar cooperativas e diversificar as culturas tradicionais da borracha e da castanha em busca de novos mercados.
O objetivo, segundo Tião Viana, governador do estado, é fazer com que a floresta seja mais valiosa do que a exploração madeireira e pecuária, de modo que o Acre possa proteger árvores sem sacrificar o desenvolvimento. Desde 1999, o estado foi mapeado e zoneado, com grande parte de sua floresta protegida em parques ou reservas indígenas e extrativistas. Alguns, principalmente os pequenos agricultores, ainda desmatam ilegalmente. Mas as regras, de um modo geral, têm sido respeitadas. Algumas áreas desmatadas serão replantadas, outras podem ser utilizadas para a agricultura de baixo impacto, e outras ainda serão exploradas por indústrias sustentáveis que comercializam produtos florestais. “Nós não precisamos desmatar mais”, declara Viana. “Mas não precisamos ter medo de usar o que já foi liberado para o desenvolvimento”.
Desenvolvimento e a sustentabilidade de mãos dadas
Em Xapuri, cidade natal de Mendes, uma fábrica que leva seu nome comercializa nozes selvagens. Ela é dirigida pela cooperativa Cooperacre, com mais de 2 mil pequenos produtores. Perto dali, a Natex, a única fábrica de preservativos do mundo que utiliza látex de seringais selvagens, compra sua matéria-prima de 700 famílias de seringueiros. A Natex paga um pouco mais do que o valor de mercado, e o governo do estado acrescenta um subsídio em reconhecimento do papel destas famílias na proteção da floresta. O governo federal compra toda a produção da fábrica de 100 milhões de preservativos por ano como parte de seu programa nacional de combate à Aids.
O Seringal Veneza, uma reserva de seringeiros perto de Feijó, na região central do Acre, é muito distante da Natex para servir como seu fornecedor. Mas um grupo de 32 famílias que moram ali está usando técnicas desenvolvidas na Universidade de Brasília para processar o latex in loco. As folhas de borracha resultantes são mais fáceis de armazenar e transportar, e podem ser vendidas por um preço muito mais alto. A Veja, uma empresa de calçados francesa, é uma de suas clientes, e Flávia Amadeu, uma designer do Rio de Janeiro, está ensinando os seringueiros a tingir e dar textura às folhas para que sejam transformadas em joias.
Estradas de dois gumes
Novas estradas levam moradores rurais aos postos de saúde e escolas, além de produtos para o mercado extrativista. Mas elas também facilitam a chegada das motosserras. Viana está abrindo o último trecho da estrada que liga o Acre ao resto do Brasil, ao mesmo tempo que tenta limitar o seu impacto prejudicial sobre a floresta. Perto de Feijó, parcelas de terras cultivadas agem como uma barreira entre a estrada e terra virgem: em 2000, o estado concedeu 4,5 hectares de pastagens degradadas ao longo da estrada para agricultores familiares da região. Aqueles que as reflorestaram e evitaram o uso do fogo para desmatar receberam sementes, treinamento, ajuda para encontrar compradores e um subsídio de R$500 por ano.
Há mais de uma década, a taxa de crescimento econômico do Acre supera a média brasileira. As escolas e serviços de saúde do estado têm melhorado, e a pobreza e o analfabetismo caído muito mais rápido do que a media nacional também. Entretanto, intensificar e ampliar as políticas sob medida do estado para possibilitar o desenvolvimento sustentável de toda a região da Amazônia seria difícil, assim como custoso. O Acre é pequeno, representando apenas 3,5% da Amazônia (embora ainda seja maior que a Inglaterra). E apenas uma parte pequena do estado está dentro do “arco do desmatamento”: a fronteira entre fazendas existentes e a floresta, onde a agricultura de corte-e-queima tende a ocorrer com mais frequência. Isso facilitou a resolução de disputas de terra no estado e o cumprimento de leis de zoneamento. Talvez a lição mais importante do Acre para outros estados da região seja simplesmente que as políticas ambientalistas podem ser desenvolvimentistas também.
* Publicado originalmente na The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.
Fonte: http://envolverde.com.br/ambiente/brasil/acre-lidera-novo-boom-da-borracha/
Comunidades revitalizam Rio São Francisco
Populações ribeirinhas de um afluente do Rio São Francisco respondem com medidas originais à destruição de seu curso de água.
Januária, Brasil, 3 de dezembro de 2012 (Terramérica).- José Geraldo Matos recorda com saudades as grandes traíras (Hoplias sp), peixes carnívoros de lagoas e rios do Brasil, que ele pescava no Rio dos Cochos, a poucos metros de sua casa. Restabelecer as condições que tinha este rio de 38 quilômetros ao menos três décadas atrás não parece possível, mas graças a um esforço concertado, já foi recuperada parte do fluxo que ostentava antes que a sedimentação e a perda de nascentes o convertessem em um riacho intermitente.
“Onde vivo ficou sem água cerca de 20 dias” este ano, de forte estiagem. Antes “ficava seco por quatro ou cinco meses”, disse Jaci Borges, morador local e ativista da Cáritas, organização católica que apoia essa iniciativa e muitas outras de desenvolvimento solidário. Salvar este e outros pequenos rios é fundamental para revitalizar o São Francisco, o mais importante recurso hídrico do Nordeste do Brasil, uma região iluminada por suas nove hidrelétricas, médias e grandes.
O Rio dos Cochos, um subafluente, faz parte de sua bacia. Dos 36 afluentes diretos do São Francisco, chamado “rio da integração nacional” por cruzar o centro e o nordeste do país, 16 já eram intermitentes em 2005, conforme investigou o jornalista Marco Antonio Coelho para seu livro Os Descaminhos do São Francisco. A população ribeirinha do rio dos Cochos – 300 famílias, ou cerca de 1.500 pessoas – começou a reagir à destruição de seu rio em 2001.
A preparação, que incluiu criar a Associação de Usuários da Sub-Bacia do Rio dos Cochos e a discussão sobre o que fazer exigiu três anos. A partir de 2004 foram construídas 850 “barraginhas”, pequenas represas circulares junto a estradas e outros caminhos por onde seguem as águas de cheias ou chuvas. Desta forma, se impede que os sedimentos, abundantes por causa do solo arenoso, sejam arrastados até o leito do rio e continuem entupindo-o.
Além disso, a terra ao redor dessas pequenas represas fica úmida e se alimenta do lençol freático em uma área onde as chuvas não são abundantes e as graves secas são frequentes, como a que sofre o semiárido do país desde ao ano passado. O Rio dos Cochos cruza os municípios de Cônego Marinho e Januária, no norte de Minas Gerais, com um clima semiárido semelhante ao que afeta quase todo o interior do Nordeste, onde o índice pluviométrico varia entre 250 e 750 milímetros por ano.
Além das represas, há três anos se tenta restaurar as florestas ribeirinhas, estendendo uma cerca a 30 metros do leito do rio para impedir a invasão do gado. Nem todos aderiram a esta campanha, mas é impressionante a recuperação natural da vegetação onde foi colocada essa proteção, sem necessidade de plantar novas árvores, contou Matos. O pequeno rio ficou conhecido como exemplo de revitalização, divulgado pela imprensa e pela televisão nos últimos anos.
A causa da deterioração do rio é o desmatamento dos morros e a substituição da mata original por eucalipto para produzir carvão vegetal, estimulada por políticas oficiais desde a década de 1970. Sua agonia vinha prejudicando a produção agrícola local. “Muitas nascentes secaram, algumas fechadas por sedimentos”, explicou Borges.
Minas Gerais é o Estado de maior atividade de mineração, vinculada ao transporte ferroviário e à siderurgia, grandes consumidores de carvão vegetal. Entretanto, a pecuária também foi uma causa da deterioração, pois danificou a mata e o solo na margem do rio, até ser colocada a cerca. Além disso, exigia a substituição da vegetação natural por extensas pastagens, favorecendo a erosão que, por sua vez, libera mais sedimentos.
Matos, de 57 anos, divide com cinco irmãos uma área de 200 hectares dedicados a agricultura e pecuária. De seus três filhos, um já foi para a cidade próxima, Januária, e “o outro também quer ir”, lamentou. “Viver aqui é bom, mas sobreviver é difícil”, porque as chuvas são muito irregulares e, “após dois meses sem chover, se perde tudo”, contou. Outras dificuldades são as estradas, de terra e sem manutenção adequada, acrescentou Borges. A pouca atenção das prefeituras afeta o transporte, e também as “barraginhas” com as quais se tenta salvar o rio.
As últimas chuvas romperam diques mal feitos em um trecho da estrada onde foram construídos, mais ou menos a cada 50 metros, para resistir à intensidade das cheias. Assim, cresce a bola de neve: as “barraginhas” corrente abaixo não suportam as águas que crescem muito por não serem contidas acima, explicou o camponês e ativista. A associação de moradores locais proporá às prefeituras uma reforma em um trecho de 6,5 quilômetros da estrada para testar o modelo que poderá servir mais tarde para toda a extensão.
A recuperação do riacho por iniciativa dos próprios moradores mostra um caminho para revitalizar o São Francisco, uma promessa do governo federal como contrapartida à transposição de águas desse grande rio, uma obra gigantesca concebida para melhorar o abastecimento hídrico de quatro Estados do Nordeste, que beneficiará 12 milhões de pessoas, segundo o projeto oficial.
Contudo, pouco está sendo feito, apenas o saneamento básico – e incompleto – de algumas cidades, e nada para reflorestar as margens dos rios, segundo Roberto Malvezzi, membro da Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica. Vários estudos estimam que o São Francisco perdeu um terço de seu fluxo desde meados do século passado. Muitos de seus afluentes ou subafluentes secaram em Minas Gerais, onde nasce a maior parte de suas águas.
A pecuária e as monoculturas – soja, café, arroz e outros grãos, além do eucalipto – provocaram desmatamento e são as principais causas desse desastre hídrico, ao “romper o ciclo hidrológico”, disse Apolon Heringuer-Lisboa, fundador e dirigente do projeto Manuelzão, que procura recuperar o Rio das Velhas. O grande problema deste curso é que cruza a região metropolitana de Belo Horizonte, a capital de Minas Gerais, e recebe a contaminação do esgoto urbano e industrial antes de desembocar no São Francisco. Envolverde/Terramérica
* O autor é correspondente da IPS.
Fonte: http://envolverde.com.br/terramerica/terramerica-comunidades-revitalizam-rio-sao-francisco/
Os rios brasileiros fotografados por astronautas
O site Gateway to Astronaut Photography of Earth abriga a maior e mais completa coleção de fotografias do nosso planeta feitas por astronautas. São mais de 1.500.000 fotos desde as missões Mercury, no início dos anos 1960, os astronautas vem tirando fotos da Terra. A partir deste incrível banco de dados é possível encontrar milhares de fotos dos mais diversos temas. E diariamente mais fotos são incluídas vindas diretamente da Estação Espacial Internacional. Abaixo selecionamos algumas fotos de rios brasileiros nos últimos 30 anos. As fotos são uma cortesia do Image Science & Analysis Laboratory, NASA Johnson Space Center.
Veja as fotos: http://www.oeco.com.br/geonoticias/26695-os-rios-brasileiros-fotografados-por-astronautas
Os inúteis caminhos para ‘derrotar a seca’
Washington Novaes
Com a cobertura mais frequente que a televisão vem dando nas últimas semanas à questão da seca no Semiárido nordestino, vai-se de espanto em espanto, diante da gravidade do panorama, da insuficiência – para não dizer ausência – de providências eficazes do governo federal e das informações sobre tudo o que se poderia fazer por caminhos competentes, mas não se faz. E tudo isso na mesma hora em que se vê a teimosia do foco oficial no projeto de transposição de águas, como se ele fosse o santo milagreiro – quando não é, já está custando quase o dobro do orçamento inicial (de R$ 4,6 bilhões para R$ 8,2 bilhões), com vários trechos parados, outros já necessitando de obras reparadoras e outros ainda, de novos “aditivos” nos orçamentos. Inacreditável.
Diz o Operador Nacional do Sistema Elétrico (Estado, 31/10) que o último mês de outubro foi o mais seco em toda a região nos últimos 83 anos. As opiniões de especialistas asseguram que se trata da mais forte estiagem entre 30 e 50 anos. Em depoimento na audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, o diretor da Secretaria Nacional de Defesa Civil do Ministério da Integração Nacional (Agência Brasil) afirmou que 10 milhões de pessoas foram atingidas em 1.317 municípios.
Só em Pernambuco, segundo o engenheiro José Artur Padilha, criador do projeto Base Zero (Estado, 19/11), são 1,18 milhão de pessoas afetadas diretamente, enquanto mais 3,67 milhões sentem os efeitos em 122 dos 184 municípios do Estado. Só nas lavouras de subsistência as perdas já chegam a 370 mil hectares. Os rebanhos pernambucanos perderão15%, entre bovinos, ovinos e caprinos (remaatlantico, 7/11). Na Paraíba estão sofrendo 2,3 milhões de pessoas, ou 70% da população, em 198 dos 223 municípios, com situação de emergência decretada em 170 cidades. Na Bahia são 250 municípios em emergência. Em Caém, a 333 quilômetros de Salvador, não chove há um ano e meio (Estado, 31/10). No Piauí são 215 dias sem chuva, 200 municípios em emergência. E muitos especialistas já dizem que as chuvas só virão em 2013.
Será todo esse quadro uma fatalidade? Nada a fazer? Na mesma audiência na Câmara dos Deputados, o professor João Abner, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, especialista em recursos hídricos que há décadas se dedica ao problema, assegura que não (Agência Brasil, novembro/2012). Segundo ele, fome, seca e perdas poderiam ser evitadas se houvesse programas de abastecimento de água como o Luz para Todos. “Tem água sobrando para consumo humano e animal”, assegura. “Tem estoques de água suficientes para atender plenamente, mesmo em época como agora. São 10 bilhões de metros cúbicos armazenados na região acima do Rio São Francisco, em grandes reservatórios.” Só que não há sistemas de abastecimento ligados aos açudes, que servem apenas aos grandes proprietários rurais. E “com menos de 20% da disponibilidade hídrica dos reservatórios” se atenderia a toda a demanda local.
Mais surpreendente ainda, diz o professor Abner que “o Semiárido brasileiro é um dos sistemas ambientais mais chuvosos no mundo, mas o acesso à água não está democratizado”. Há 60 mil açudes reservados para poucos. E 95% da água se perde na evapotranspiração (!). Um programa do tipo Água para Todos custaria menos de R$ 20 por pessoa. Menos que o custo de um carro-pipa, lembra ele; um terço do custo da transposição do São Francisco.
Não é ele apenas que tem visões dessa natureza. Na mesma ocasião, o professor João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, depois de acentuar que metade da população “sofre com seca e fome”, lembrou que 80% das secas são “no miolo da região”, por má distribuição dos recursos. Esta não atende a diretrizes já definidas há décadas, inclusive pelo Ministério do Meio Ambiente, segundo as quais é preciso ter “estratégias de convivência” com o Semiárido – e não tentativas de “combater a seca”. A propósito, há alguns anos, quando fazia um documentário para a TV Cultura sobre o tema, o autor destas linhas ouviu do consagrado e experiente escritor Ariano Suassuna (que cria cabras na região) que “tentar combater a seca no Nordeste é o mesmo que tentar impedir que caia neve sobre a Sibéria”.
Também o professor João Suassuna enfatiza o problema de manter a água estocada em reservatórios (só no Ceará, 8 mil, com capacidade para 18 bilhões de metros cúbicos), sem distribuição. Para ele, mesmo depois de concluída a transposição do São Francisco persistirá o problema das populações que vivem em pequenas comunidades isoladas, aonde não chegarão adutoras – os 12 milhões de pessoas para quem “será levada uma caneca de água”, no dizer do ex-presidente da República. Por isso, em lugar de transpor água, o governo deveria pensar nos projetos contidos desde 2006 no Atlas do Nordeste de Abastecimento de Água, coordenado pela própria Agência Nacional de Águas – e que custariam, para executar, menos de metade (R$ 3,3 bilhões) do investimento na transposição e atenderia 34 milhões de pessoas.
E há mais. Desde o final da década de 90 o engenheiro José Artur Padilha vem experimentando – e viabilizando – em Afogados da Ingazeira (PE) o sistema chamado de Base Zero. São barragens construídas em leitos de rios secos, só com pedras, em cujos interstícios, sem argamassa, se depositam na época das chuvas sedimentos e materiais orgânicos que fertilizam a área no entorno. A água infiltrada e retida nos períodos chuvosos permite o plantio na seca. E cada bacia assim fertilizada pode tornar viável o desenvolvimento adequado para 40 a 50 famílias em 2 mil hectares. No Polígono das Secas, com 800 mil quilômetros quadrados, seria possível atender por esse caminho 2 milhões de famílias. Desde 1999 (6/5) este escriba comenta o projeto neste espaço. Mas os formuladores de políticas não se comovem.
Soluções há. Sem tentar, inutilmente, derrotar a seca.
Washington Novaes é jornalista.
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo.
Fonte: http://www.ecodebate.com.br/2012/12/03/os-inuteis-caminhos-para-derrotar-a-seca-artigo-de-washington-novaes/
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