quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Camping do Rio Vermelho - Um Exemplo de Sustentabilidade.

Com texto da bióloga Daniela Zaccarelli, modelo de gestão sustentável do camping do Rio Vermelho (Florianópolis-SC) prova que é possível ser ecologicamente correto e proporcionar um dos campings mais tradicionais do país. Local conhecido e frequentado por diversas famílias campistas de alma esteve fechado durante alguns anos, mas retornou com força total dando bons exemplos de como destinar o lixo e educar a população.

_____________________________________________________________________________________________

O Camping Rio Vermelho, localizado no Parque Estadual do Rio Vermelho em Florianópolis, S.C., tem localização privilegiada, fica na Praia de Moçambique, entre a badalada Lagoa da Conceição e o Norte da Ilha, onde estão as praias do Santinho, .dos Ingleses e Canasvieiras.
O Camping conta com disponibilidade de 600 vagas de barracas e tem estrutura para receber trailers e motor homes.
 
Conta ainda com segurança 24h, disponibilidade de água e luz (220v) para os equipamentos, estacionamento, banheiros com chuveiros quentes, área comum com churrasqueiras e pias, tanques para lavar roupa, serviço de restaurante (cantina) e recreação (salão de jogos, um campo de futebol, uma quadra de vôlei de areia e um playground infantil). O acesso à praia é feito por trilha. Percorre-se cerca de 600m no meio da mata de Pinheiros (Pinus elliottii) e Eucaliptos (Eucalyptus sp.)que faz parte do Parque e chega-se a uma praia encantadora, chamada Moçabique, praticamente frequentada apenas pelo pessoal do camping. (veja mais no guia.)

O Parque Estadual do Rio Vermelho

O camping atualmente é gerido pela FATMA, Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina e está localizado no Parque Estadual do Rio Vermelho (PAERVE). Com uma área de 1532 hectares, o PAERVE foi criado pelo Decreto nº 308 de 24 de maio de 2007, com o objetivo de conservar amostras de Floresta Ombrófila Densa (Mata Atlântica), conservar a vegetação de restinga, conservar a fauna associada ao domínio da Mata Atlântica, manter o equilíbrio do complexo hídrico da região, propiciar ações de recuperação dos ecossistemas alterados e proporcionar a realização de pesquisas científicas e a visitação pública. A vegetação encontrada no Parque é composta por 11% de Floresta Ombrófila Densa (“Mata Atlântica), encontrada no Morro dos Macacos, 54% de restinga com diferentes alturas e composição de espécies e por 35% de ecossistemas alterados devido o plantio e a invasão de pinheiros e eucaliptos.

A Mata de Pinheiros e Eucaliptos

Em 1962 a área do parque foi definida como uma Estação Florestal com o objetivo de experimentação e identificação das espécies mais aptas a crescer e proteger a orla marítima do Estado, visando principalmente a fixação e contenção de dunas, mas também disponibilizar uma área verde para a população. Durante 12 anos foram plantadas diversas espécies de pinheiro-americano (Pinus elliottii) e Eucaliptos (Eucalyptus sp.) oriundos de diversas partes do mundo, dentre outras espécies exóticas, como a casuarina e acácias.
Hoje se sabe que as espécies exóticas plantadas no Parque Estadual do Rio Vermelho, com menor ou maior grau, são espécies invasoras, destacando-se os efeitos danosos do pinheiro-americano. Estão sendo realizados estudos no parque que visam levantar informações para a sua restauração ambiental. Ao final destes estudos será feita a venda e a retirada da madeira comercial de Pinus e Eucalyptus, assim como a retirada de todas as espécies exóticas do parque, como prevê o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC (Lei n° 9.985/2000).

Consciência Ambiental

A coleta de seletiva de lixo e a compostagem da matéria orgânica é o ponto alto do Camping do Rio Vermelho. Em todos os postes há três tipos de bombonas (lixeiras): a que coleta o material orgânico (restos de alimentos), a que coleta o lixo seco (latas, pets, vidros, embalagens higienizadas, papelão limpo, papel, etc.) e a de rejeitos (fraudas, papel higiênico, guardanapo, papeis sujos de comida ou gordura, etc.).

Na entrada do camping existe uma grande área de compostagem, que recebe todo o lixo orgânico gerado no local. Na composteira a matéria orgânica se transforma em adubo com o passar do tempo e é utilizado em uma grande horta.

Já o lixo seco é destinado para cooperativas da comunidade local, que ganham o seu sustento com a venda principalmente de latas e garrafas pets. O mais impressionante é como o processo de reciclagem funciona bem. Logo que os campistas chegam, ao dar entrada no camping, já recebem as instruções de como separar o lixo. As lixeiras, possuem placas ilustrativas de como deve ser feita a separação. Os funcionários estão o tempo todo andando pela área do camping e se o campista tem alguma dúvida, recebem o auxílio na hora. Na minha opinião dois fatores contribuem para o sucesso da coleta seletiva no Camping Rio Vermelho. A disponibilidade dos funcionários em auxiliar e orientar os campistas no ato da separação do lixo e o fato das pessoas poderem ver a destinação final do lixo separado. Isso é importantíssimo, pois se percebe a importância e seriedade da atividade. As oficinas de compostagem foram importantes para essa consciência. Elas são feitas para os campistas interessados com o intuito de esclarecer e informar sobre a destinação do lixo orgânico. As pessoas visitam as composteiras, recebem todas as informações sobre o processo em si e podem ver o adubo ser aplicado na horta local. Todo fim de tarde, o pessoal da comunidade responsável pela coleta do lixo seco aparece no camping para fazer a retirada do material.

Espero que o Camping do Rio Vermelho sirva de exemplo para os demais. Acampar é acima de tudo conviver com a natureza e nada melhor que neste convívio, praticar atividades que beneficiem o meio ambiente e o ser humano.




por Daniela Zaccarelli - bióloga e responsável pela área de Meio Ambiente da Ecótonus Meio Ambiente e Arquitetura.

Fonte: http://portal.macamp.com.br/noticia.php?varId=1308

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Ilha Macquarie: como vencer os predadores introduzidos


Fabio Olmos - 05/01/15

Fig-2Localizada na latitude 54°38’S, Macquarie não tem árvores e é coberta principalmente por campos de tussock e turfeiras. Fotos: Fabio Olmos
A superfície da Terra é formada por placas tectônicas que flutuam sobre o mar de lava abaixo da crosta terrestre. As placas se movem, afastando-se e colidindo, dividindo-se ou mergulhando umas sob as outras. Placas que se afastam dividem continentes e dão origem a oceanos, enquanto colisões os fundem e dão origem a montanhas com rochas marinhas nos seus cumes e abismos oceânicos.
No fundo do mar, a cerca de 1.500 km ao sul da Tasmânia e quase a mesma distância da Nova Zelândia, as placas tectônicas Indo-Australiana e Pacífica passaram milhões de anos se afastando. As fendas criadas permitiram que a lava emergisse no solo oceânico e, em contato com as águas gélidas do abismo, formasse rochas especiais, um tipo de basalto em formato de almofada (lavas almofadadas ou pillow lava). Um exemplo dessas rochas pode ser visto em Pirapora do Bom Jesus, em São Paulo.
Nada é para sempre e as placas tectônicas reverteram seu curso, desta vez entrando em colisão. O resultado desta trombada não são apenas terremotos regulares, mas também a formação de uma cordilheira de montanhas submarinas, a Macquarie Ridge, que se estende por 1.500 km e se ergue a mais de 4 mil metros em relação ao fundo oceânico.
Rochas formadas a 9 milhões de anos por lavas que brotavam de uma rachadura no fundo mar, e outras ainda mais antigas e geradas ainda mais fundo, são hoje montanhas que continuam crescendo a 0,5 mm/ano. O que nós chamamos de Ilha Macquarie emergiu entre 600 e 700 mil anos atrás e (ainda) é a única parte da cordilheira visível acima das ondas. É muito incomum que um grande pedaço de crosta oceânica surja na superfície.
A vida em uma ilha longínqua
"... as únicas aves terrestres nativas, o periquito, a saracura e um pato ainda não descrito, foram extintas pelos humanos, seus cães, gatos, coelhos e ratos."
A geologia peculiar de Macquarie é a principal razão pela qual essa ilha de 12.788 hectares e 433 metros de elevação máxima é, desde 1997, considerada um Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Mas a história da relação entre sua fauna e flora versus os humanos e seus agregados que chegaram muito depois é, no mínimo, interessante.
Macquarie é uma ilha extremamente isolada nos chamados Furious Fifties, as latitudes subantárticas onde o mar é bravio, as temperaturas baixas e chuva quase constante (320 dias/ano em Macquarie). O isolamento, o clima e a pouca idade implicam em uma biota com poucas espécies, o que não quer dizer que não seja especial. A flora inclui 47 espécies de plantas vasculares (quatro endêmicas, incluindo duas orquídeas), 91 de musgos, 50 de hepáticas e mais de 200 de fungos e 100 de líquens. A principal fitofisionomia da ilha são os campos de gramíneas (tussock) e turfeiras.
Árvores não crescem ali, mas há campos das chamadas "megaervas", parentes das margaridas, cenouras escheffleras que atingem porte considerável nas ilhas subantárticas. Estas são polinizadas principalmente por moscas (11 espécies na ilha) e pela mariposa endêmica Eudonia mawsoni (a única na ilha). É interessante que das 15 espécies de minhocas, três também são endêmicas. Como chegaram ali?
Os únicos vertebrados que puseram os pés na ilha antes da chegada dos humanos foram focas, lobos-marinhos e aves. Antes de 1810, Macquarie tinha colônias com centenas de milhares (ninguém realmente sabe quantos) de lobos marinhos de três espécies (Arctocephalus tropicalis, A. gazella e A. forsteri) e de elefantes-marinhos Mirounga leonina. A ilha também recebe visitas de leões-marinhos-de-hooker Phocarctos hookeri e focas-leopardo Hydrurga leptonyx.
Quinze espécies de petréis, quatro de albatrozes e quatro de pinguins nidificam em Macquarie. Também há skuas, trinta-réis, gaivotas e biguás, uma riqueza de aves marinhas que sustenta mais de 50 espécies de piolhos, a maioria restrita a um tipo de hospedeiro ou parte de sua anatomia.
As especialidades entre as aves marinhas são o pinguím-real Eudyptes schlegelli e o biguá-de-macquarieLeucocarbo purpurascens, encontrados apenas ali. Infelizmente as únicas aves terrestres nativas, o periquitoCyanoramphus erythrotis, a saracura Galirallus macquariensis e um pato ainda não descrito, foram extintas pelos humanos, seus cães, gatos, coelhos e ratos.
Exploração acelerada
Fig-22A espécie mais comum de lobo-marinho em Macquarie é o lobo-marinho-antártico. A população desta espécie cresceu muito na região antártica e indivíduos estão recolonizando Macquarie.
"As populações de lobos-marinhos foram dizimadas em apenas 11 anos durante um massacre estilo tragédia dos comuns."
Macquarie foi descoberta acidentalmente em 1810 pelo capitão Frederick Haselburgh do navio caçador de focas Perseverance. Sim, é o mesmo já mencionado em outra história que contei. A notícia de que a ilha tinha grandes populações de lobos-marinhos provocou uma corrida de caçadores australianos, neozelandeses e norte-americanos. Os registros documentam que duas centenas de milhares de peles foram exportadas da ilha para abastecer o principal mercado consumidor, a China imperial.
Os caçadores de focas passavam meses na ilha em condições para lá de rústicas. Escravidão por débito era comum, assim como gastarem o que ganhavam em poucas noites de bebedeira quando retornavam à "civilização". Mas era uma vida que atraia os que apreciavam a relativa independência e (para os neozelandeses) a ausência de risco de virar churrasco nas mãos dos maori, como acontecia nas ilhas mais ao norte. Estes homens viviam do que conseguiam e um prato favorito eram os grandes albatrozes-gigantes Diomedea exulansque ali nidificavam. Centenas de esqueletos encontrados em cavernas e outros antigos abrigos são testemunho do apetite dos caçadores.
As populações de lobos-marinhos foram dizimadas em apenas 11 anos durante um massacre estilo tragédia dos comuns. Embora a "indústria" tenha efetivamente morrido em 1821, foi apenas nos anos 1950 que os primeiros lobos-marinhos voltaram a se reproduzir na ilha. Os números dos sobreviventes são pequenos (c. 200 filhotes nascem por ano) e o desequilíbrio e colapso da organização social resultantes do massacre fazem que as três espécies hibridizem. Até 30% dos filhotes são híbridos, um experimento em evolução que mostra como solidão com tesão vence barreiras reprodutivas.
Com a extinção dos lobos-marinhos, os caçadores começaram a "minerar" os elefantes-marinhos. Miravam principalmente os grandes machos (que chegam a 3,7 toneladas), que eram mortos, retalhados e tinham a gordura cozida em grandes potes de metal para extrair o óleo, usado na iluminação pública e processos industriais. Entre 1820 e 1830, a atividade gerou emprego e renda (como dizem nossos desenvolvimentistas) e reduziu a população de focas em 70%.
Massacre dos pinguins
"No pico da produção, em 1905, os extratores em apenas uma localidade, Nugget Point, podiam processar 2.000 pinguins reais de uma só vez"
O colapso do recurso levou a um hiato nas atividades entre 1830 e 1874, quando teve início o último ciclo do óleo em Macquarie. Uma figura central desta fase foi o político e empresário neozelandêsJoseph Hatch, que entre 1890 e 1919 deteve a concessão para explorar a ilha. Como no Brasil de hoje, a mistura entre política e negócios foi um desastre ambiental.
Hatch descobriu a tecnologia dos "extratores", criada pelos noruegueses, então já com longo histórico de massacrar baleias e outros animais marinhos. Essas grandes panelas de pressão permitem extrair óleo de carne, ossos e animais menores. Hatch imediatamente percebeu o potencial das colônias com milhões de pinguins que ainda existiam em Macquarie, especialmente os pinguins-rei Aptenodytes patagonicus. Estes produziam um óleo mais limpo, menos contaminado com sangue, que os pinguins-reais.
As aves eram mortas a porrete e empilhadas dentro de extratores, aquecidos com o óleo de seus predecessores. No pico da produção, em 1905, os extratores em apenas uma localidade, Nugget Point, podiam processar 2.000 pinguins reais de uma só vez, cada ave produzindo meio litro de óleo. Os milhões de pinguins-rei que existiam no final do século XIX estavam reduzidos a 3.400 em 1930.
Início do movimento de conservação
Fig-20Cerca de 1,6 milhão pinguins-reais vivem em Macquarie.
As coisas mudaram quando Macquarie se tornou parte da Austrália e a J. Hatch & Co se mudou para Hobart , no novo país. Em 1911, a então Australian Antarctic Expedition (que deu origem à Australian Antarctic Division) se estabeleceu na ilha. E o que acontecia lá se tornou mais conhecido.
O massacre cotidiano chocou os grandes exploradores polares Douglas Mawson, Frank Hurley e Apsley Cherry-Garrard, além de figuras como o escritor H. G. Wells e o banqueiro, barão e naturalista Walter Rothschild. Estes iniciaram uma das primeiras campanhas internacionais pela conservação da vida silvestre, mas Hatch, como nossos ruralistas, manobrou politicamente e conseguiu manter sua licença até 1920. Esta pessoa agradável morreu com 91 anos, em 1928. A J. Hatch & Co havia colapsado dois anos antes.
O estrago de cães, gatos e coelhos
"Todos estes exóticos e invasores, exceto o coelho, caçavam aves nativas. E todos, incluindo o coelho, levaram a ilha a um desastre ambiental."
O fim da mineração da fauna não foi o fim dos problemas para o ecossistema da ilha, já que onde humanos vão seus comensais os seguem. Em 1815 já havia relatos de "inumeráveis" cães ferais na ilha causando grande destruição entre as aves. Em 1820, o explorador Bellinghausen encontrou tanto cães como gatos ferais numerosos na ilha. Coelhos (em 1879) e wekas (em 1872 e 1879) foram soltos para aumentar o cardápio dos caçadores de focas. Finalmente, camundongos também já estavam bem estabelecidos em 1890, e ratos ao redor de 1900.
Todos estes exóticos e invasores, exceto o coelho, caçavam aves nativas. E todos, incluindo o coelho, levaram a ilha a um desastre ambiental.
Não há registros de cães ferais depois de 1820, quando as grandes colônias de albatrozes já haviam sido dizimadas pelos caninos e por caçadores coletando ovos e carne para consumo próprio. Acredita-se que isso deve ter levado os cães ferais a morrerem de fome, mas cães domésticos continuaram presentes nas ilhas, usados pelos caçadores de focas e pinguins.
O periquito e a saracura endêmicos podiam lidar com as skuas, os únicos predadores nativos, e essa habilidade permitiu que sobrevivessem por 60 anos de predação por cães, gatos e humanos. Até a chegada dos coelhos.
A introdução dos coelhos teve dois efeitos. Primeiro, causou uma deterioração da vegetação da ilha, destruída por herbívoros contra os quais as plantas não tinham defesa. Segundo, os coelhos permitiram que as populações de gatos e wekas crescessem muito mais que nas décadas anteriores. Os coelhos eram o alimento para aqueles predadores durante o inverno, quando a falta de comida reduzia seus números.
A degradação do habitat somada ao aumento da predação levou o periquito à extinção em 1890 ou 1891, mesma época em que a saracura endêmica foi vista pela última vez. A sinergia entre diferentes espécies introduzidas se mostraria importante depois.
Transformação como área protegida
Fig-4“Extratores” utilizados para cozinhar pinguins-rei e extrair seu óleo estão abandonados em Lusitania Bay. Testemunho de um cruel ciclo econômico.
"Os endêmicos pinguins-reais hoje somam 1,6 milhão de aves. E a colônia de pinguins-rei de Lusitania Bay, que tinha 3.400 aves em 1930, foi estimada em 250.000 aves"
Com o fim da indústria de óleo animal e o avanço do governo da Tasmânia (que ainda é responsável pela ilha) ter declarado Macquarie um santuário da vida selvagem em 1933 (e desde 2002 uma Nature Reserve que inclui as águas ao redor) as populações de pinguins, elefantes-marinhos e lobos-marinhos começaram a se recuperar. Os endêmicos pinguins-reais hoje somam 1,6 milhão de aves. E a colônia de pinguins-rei de Lusitania Bay, que tinha 3.400 aves em 1930, foi estimada em 250.000 aves quando a visitei em novembro passado.
A visão dos "extratores" da J. Hatch & Co enferrujando, cercados por um quarto de milhão de pinguins, me faz pensar se, no Brasil, ainda veremos silos abandonados cercados por cerrado em regeneração quando mais este ciclo econômico colapsar.
Os elefantes-marinhos, cuja população original era estimada em 100 mil antes dos caçadores chegarem, chegaram a 180 mil em 1950, uma recuperação excepcional. No entanto, essa foi seguida por um declínio de mais de 50%, que ainda continua. A causa são mudanças na distribuição do gelo ao redor da Antártica ligadas ao famoso buraco na camada de ozônio e à circulação atmosférica.
A história é ainda menos positiva para outras espécies. Míseros quatro pares de albatrozes-gigantes nidificam na ilha a cada ano, quando antes deveriam existir milhares. E, até recentemente, os predadores introduzidos continuavam a manter as espécies nativas sob pressão. Diversos petréis e pardelas estavam restritos a áreas inacessíveis aos gatos e wekas, e suas populações eram uma mísera fração do que foram.
Extermínio dos gatos
"O Service resolveu lidar com os gatos de forma mais séria e um plano de erradicação foi estabelecido."
No início da década de 1970 uma população estimada de 500 gatos estava matando pelo menos 60 mil aves marinhas a cada ano. Predação por wekas também era intensa, assim, como os danos causados pelos coelhos.
O Tasmanian Parks and Wildlife Service estava ciente da situação e gatos eram abatidos pelos guardas-parque sempre que possível. Nos anos 1960-70, o serviço também introduziu a pulga do coelho e o vírus da mixomatose, transmitido por ela. Este é apocalíptico para os coelhos, pelo menos durante um tempo, e a população foi reduzida de 150 mil para um mínimo variável de 5 a 20 mil.
Com a queda da população de coelhos os gatos aumentaram a predação sobre as aves marinhas e os wekas (que também são aves), levando à adoção de um programa integrado de controle que começou em 1985. O último weka foi morto (a tiro) em 1988, mas os gatos continuaram comuns embora, entre 1974 e 1995, terem sido eliminados 1.689 gatos.
O Service resolveu lidar com os gatos de forma mais séria e um plano de erradicação foi estabelecido. Dois e depois seis guardas-parque utilizando armadilhas, veneno e espingardas trabalharam intensivamente entre 1996 e 2000, eliminando 761 gatos, incluindo os dois últimos, em outubro de 1999 e junho de 2000. Espécies como a pardela-cinza Procellaria cinerea, ausentes há um século, voltaram a colonizar a ilha já em 1999-2000. Outras estão retornando, o que é o grande indicador do sucesso da erradicação.
Como era de se esperar, aqueles que acham normal que os bichanos destruam espécies nativas fizeram um bocado de barulho com o que aconteceu depois. A remoção dos gatos coincidiu com um ciclo de menor mortalidade causada pela mixomatose (a seleção natural tende a tornar os vírus menos letais, como aconteceu com o HIV) e uma sucessão de invernos mais quentes e secos. Menor mortalidade significa mais coelhos e maior impacto sobre a vegetação, com um aumento na erosão e áreas nuas. E gerou reportagens sensacionalistas sobre a remoção dos gatos ter "destruído" o ecossistema de Macquarie.
Erradicação das exóticas
"Após o lançamento do veneno, finalizado em julho, seis times utilizando cães treinados, armadilhas, veneno e espingardas fizeram o pente-fino da ilha."
O Service percebeu que teria que agir, mas foi apenas em 2007 que o governo da Tasmânia e o governo central da Austrália racharam a conta de US$ 17 milhões para um programa integrado de erradicação dos mamíferos introduzidos. Após três anos de planejamento, em maio de 2011 (início do inverno, quando skuas e outras espécies vulneráveis a dano colateral deixam a ilha) um time de 28 pessoas e quatro helicópteros bombardeou a ilha duas vezes com iscas envenenadas com brodifacum. Meses antes, em fevereiro, coelhos contaminados com o vírus da doença hemorrágica dos coelhos foram liberados na ilha para causar uma epidemia e reduzir a população ao mínimo possível, o que funcionou muito bem.
Após o lançamento do veneno, finalizado em julho, seis times utilizando cães treinados, armadilhas, veneno e espingardas fizeram o pente-fino da ilha. Este trabalhou durou anos, mas, em abril de 2014, após três anos sem sinal de coelhos, ratos ou camundongos, Macquarie foi considerada livre destas pragas. Detalhes podem ser vistos no site do projeto.
Visitando a ilha em novembro de 2014, tanto o dano passado causado pelos coelhos como a recuperação da vegetação eram evidentes. As plantas estão respondendo de forma mais rápida que a esperada à erradicação e Macquarie, finalmente, está se recuperando. No entanto, nada trará as espécies extintas de volta, embora haja planos de introduzir parentes próximos encontrados em outras ilhas subantárticas. Vinte e quatro espécies de aves foram beneficiadas.
Balanço do programa de erradicação
Fig-17As praias de Macquarie estão abertas a turistas que querem conhecer sua vida selvagem.
O programa de erradicação de espécies exóticas em Macquarie mostra que é possível restaurar ilhas com milhares de hectares. Mostra também a importância de programas integrados que levem em consideração a interação entre as diferentes espécies-alvo e fatores como o clima. E também que, se não experimentarmos não iremos aprender como se faz.
Algo a se pensar em programas de erradicação em lugares que precisam, como Fernando de Noronha, Ilha da Trindade e Abrolhos.
Macquarie é uma reserva administrada pelo Tasmanian Parks and Wildlife Service, mas também abriga a base daAustralian Antarctic Division, presente de forma permanente desde 1948. É um arranjo interessante de cooperação entre uma agência estadual e outra federal.
Visitantes a bordo de navios de cruzeiro devidamente autorizados (até mil visitantes estão autorizados a visitar a ilha por ano. Na prática, apenas 300-400 o fazem) são recebidos e guiados pelos guardas-parque do Service e por pessoal que serve junto à Division, obviamente felizes com a oportunidade de fazer algo diferente e mostrar a área para os visitantes de uma das ilhas mais especiais do oceano meridional.
O que me faz pensar se algo similar não poderia ser feito na Ilha da Trindade, tão especial em termos de biodiversidade que muitos gostariam de visitar e, hoje, sob administração da Marinha, não podem. Fica aqui esta outra sugestão.



Fonte: http://www.oeco.org.br/olhar-naturalista/28856-ilha-macquarie-como-vencer-os-predadores-introduzidos

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A baleia-comum hoje é baleia-rara


((o))eco - 12/12/14

21b CSR Bp 20050624 17 NPIE 0550 bestUma baleia-comum (Balaenoptera physalus) fotografada em meio a um salto, no Mar Mediterrâneo. Foto: Cetacean Sanctuary Research Project (CSR)
A baleia-comum (Balaenoptera physalus) é o segundo maior animal existente no planeta, depois da baleia-azul. Também conhecida como baleia-fin e rorqual-comum, este mamífero marinho pode atingir até 27 metros de comprimento. As baleias-comuns podem ser encontradas em todo os principais oceanos. Entretanto, elas foram severamente afetadas pela caça comercial de baleias: cerca de 750 mil animais foram mortos em áreas do hemisfério sul só entre 1904 e 1979, e elas raramente são avistadas lá hoje. O status atual destes animais é desconhecido na maioria das áreas fora do Atlântico Norte. Embora a Comissão Baleeira Internacional (CBI)tenha obtido uma moratória para a pesca comercial da espécie, Groenlândia, Islândia, Noruega e Japão ainda continuam a caça em determinadas épocas do ano. Também ameaçada por colisões com navios e ruídos de atividades humana nos oceanos, a baleia-comum é considerada com espécie Em Perigo de Extinção pela Lista Vermelha da IUCN.

Fonte: http://www.oeco.org.br/especies-em-risco/28829-a-baleia-comum-hoje-e-baleia-rara

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Para evitar o holocausto biológico: aumentar as áreas anecúmenas e reselvagerizar metade do mundo, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam
menos de um décimo de um por cento da biomassa dos
vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento”.
Ron Patterson (2014)
área ocupada por humanos, pelos animais domésticos e animais selvagens

[EcoDebate] O ser humano é uma das espécies caçulas da Terra. O Homo Sapiens surgiu na África a cerca de 200 mil anos e se espalhou por todo o território mundial. As grandes migrações do passado e o processo de globalização têm tornado o mundo cada vez mais ecúmeno, com impactos crescentes das atividades antrópicas sobre o meio ambiente e a redução das áreas anecúmenas. O termo anecúmeno designa uma área da superfície terrestre emersa que não seja habitada pelo ser humano de forma permanente, opondo-se ao termo ecúmeno que designa uma área onde os humanos permanecem no presente.
Como o Planeta é um só, todas as espécies estão em constante competição entre si, bem como com os membros de sua própria espécie. Todas as espécies evoluíram e fizeram adaptações voltadas para a sobrevivência. A Águia tem voo, garras, mira telescópica e assim por diante. Todas as outras espécies têm adaptações similares. O Homo sapiens desenvolveu várias adaptações, sendo que há uma que lhe dá uma enorme vantagem sobre todas as outras: sua capacidade intelectual. Esta habilidade favorece a competição com outras espécies para a alimentação e território. O ser humano não só venceu as demais espécies, como, na verdade, está em processo de acabar com elas, provocando uma grande extinção em massa, especialmente dos vertebrados da Terra (Patterson, 2014).
Para tentar evitar os danos irreversíveis da crescente dominação humana sobre o Planeta – época conhecida como Antropoceno – existem várias propostas para salvar a vida de milhões de seres não-humanos e a biodiversidade da Terra.
O biólogo da Universidade de Harvard de 85 anos, Edward Osborne Wilson, duas vezes vencedor do Prêmio Pulitzer e autor de mais de 25 livros, acredita que o ser humano está provocando um “holocausto biológico” e para evitar a “extinção em massa de espécies”, ele propõe uma estratégia para destinar METADE DO PLANETA exclusivamente para a proteção dos animais. A tese também é defendida pela jornalista Elizabeth Kolbert no livro The Sixth Extinction.

The Sixth Extinction

Segundo reportagem de Marina Maciel, no Planeta Sustentável (09/09/2014), o plano de conservação do Dr. Wilson, chamado de “Half Earth”, inclui a criação de cadeias de corredores ininterruptos de vida selvagem, alguns deles grandes o bastante para abrigar parques nacionais de biodiversidade, idealizados para impedir o desaparecimento de espécies. Tais medidas ajudariam os animais a reagir aos efeitos das mudanças climáticas por meio da migração e também evitariam isolamento em ilhas sem conexão com outros habitats.
A Revista Science publicou, em julho de 2014, uma série de estudos em que mostra taxas alarmantes de crimes contra os demais seres vivos. A humanidade é responsável pelo risco de espécies desaparecerem com 1000 vezes mais intensidade do que os processos naturais. A Revista confirma que o ser humano está provocando, em um curto espaço de tempo, a sexta extinção em massa no planeta. Isto acontece em função dos impactos da perda da fauna devido ao empobrecimento da cobertura vegetal, à falta de polinizadores, ao aumento de doenças, à erosão do solo, aos impactos na qualidade da água, etc. Ou seja, os efeitos são sistêmicos e um dos artigos da revista chama este processo de “Defaunação no Antropoceno”, que ocorre devido ao aprofundamento da discriminação contra as espécies não humanas e à generalização do crime do ecocídio.
Segundo a WWF, no relatório Planeta Vivo 2014, o estado atual da biodiversidade do planeta está pior do que nunca. O Índice do Planeta Vivo (LPI, sigla em Inglês), que mede as tendências de milhares de populações de vertebrados, diminuiu 52% entre 1970 e 2010. Em outras palavras, a quantidade de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes em todo o planeta é, em média, a metade do que era 40 anos atrás. Esta redução é muito maior do que a que foi divulgada em relatórios anteriores em função de uma nova metodologia que visa obter uma amostra mais representativa da biodiversidade global.
Ainda segundo a WWF, a biodiversidade está diminuindo em regiões temperadas e tropicais, mas a redução é maior nos trópicos. Entre 1970 e 2010, o LPI temperado diminuiu 36% em 6.569 populações das 1.606 espécies em regiões temperadas, ao passo que o LPI tropical diminuiu 56% em 3.811 populações das 1.638 espécies em regiões tropicais durante o mesmo período. A redução mais dramática aconteceu na América Latina – uma queda de 83%. As principais causas destas reduções são a perda de habitats e a degradação e exploração decorrente de caça e pesca. As mudanças climáticas são a segunda ameaça primária mais significativa e é provável que exercerão mais pressão sobre as populações no futuro.

Índice do Planeta Vivo

Por tudo isto, se denomina Ecocídio o crime que acontece contra as espécies animais e vegetais do Planeta. Esse crime se espalha no mundo em uma escala maciça e a cada dia fica pior. Exatamente por isto, cresce a consciência de que é preciso mudar o modelo de desenvolvimento que adota um padrão de produção e consumo danoso para o meio ambiente e que é responsável pelo aumento da destruição da vida na Terra. Para tanto, é preciso considerar o Ecocídio um crime contra a paz, um crime contra a natureza e um crime contra a humanidade e as futuras gerações.
O site “Eradicating Ecocide” considera ser necessário a aprovação de uma lei internacional contra o Ecocídio para fazer com que os dirigentes de empresas e os chefes de Estado sejam legalmente responsáveis por proteger a Terra e as espécies não humanas. O Planeta teria que se tornar a prioridade número um da legislação nacional e internacional. O mundo já definiu o Genocídio como um crime, falta fazer o mesmo em relação ao Ecocídio. Não há direitos humanos no longo prazo sem o respeito aos direitos da natureza. Acabar com o ecocídio é também uma forma de evitar o suicídio.

Eradicating Ecocide

O site do Instituto Rewilding é uma outra fonte para informações sobre a integração da vida selvagem tradicional e a conservação de terras selvagens e a preservação das paisagens naturais. Ele fornece explicações sobre conceitos-chave com documentos para download e links para documentos importantes.

Rewilding Institute

Reselvagerizar o mundo pode ser uma alternativa, mesmo que parcial, aos crescentes crimes do especismo e do ecocídio. Para garantir espaços para a vida selvagem será preciso descivilizar amplas áreas territoriais, diminuindo a pegada ecológica antrópica global, regional e local. Neste sentido, a proposta de Caroline Fraser em seu livro “Rewilding the World” (Reselvagerizando o mundo) pode ser uma alternativa concreta para se evitar a extinção em massa da vida selvagem no Planeta e para criar uma esperança de conservação da biodiversidade e a convivência respeitosa e ética entre as espécies.

Rewilding the World

A humanidade ocupa cada vez mais espaço no Planeta e tem prejudicado de forma danosa todas as formas de vida ecossistêmicas da Terra. O ser humano está reincidindo cotidianamente nos crimes do especismo e do ecocídio. Se a dinâmica demográfica e econômica continuar sufocando a dinâmica biológica e ecológica a civilização caminhará para o abismo e o suicídio. Porém, antes de o antropoceno provocar uma extinção em massa da vida na Terra é preciso uma ação radical no sentido conter a ganância egoística, garantir a saúde do meio ambiente e a livre evolução da biodiversidade.
Referências:
PATTERSON, Ron. Of Fossil Fuels and Human Destiny, May 7, 2014
ATTENBOROUGH, David. Humans are plague on Earth. Telegraph, UK, 22/01/2013
Vanishing fauna. Science. Special Issue, 25 July 2014
MACIEL, Marina. Edward Wilson pede devolução de metade da Terra para os animais, Planeta Sustentável, 09/09/2014
HISS, Tony. Can the World Really Set Aside Half of the Planet for Wildlife? Smithsonian Magazine, 09/2014
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 03/12/2014

Fonte: http://www.ecodebate.com.br/2014/12/03/para-evitar-o-holocausto-biologico-aumentar-as-areas-anecumenas-e-reselvagerizar-metade-do-mundo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Baleias mudam respiração para evitar ataques de gaivotas que arrancam pedaços

Laura Plitt


Credito: Ana Fazio
Gaivotas bicam baleias e retiram pedaços de gordura e pele
É uma cena violenta. Um confronto difícil de assistir sem contorcer o rosto ou, de vez em quando, desviar o olhar.
Repete-se a cada ano entre julho e dezembro em Península Valdés, na Patagônia argentina.
Os rivais: gaivotas e baleias francas.
Embora pareça uma luta entre David e Golias, é a baleia que tem tudo a perder.
Desde os anos 70, inúmeros ataques de gaivotas a baleias têm sido registrados nesta região para onde os mamíferos aquáticos viajam com o objetivo de dar à luz e amamentar seus filhotes antes de iniciar sua viagem para a Antártida.
Credito: Ana FAzio
Feridas são circulares e, quando se unem, formam uma espécie de canal
Sempre que os cetáceos saem da água para respirar, as gaivotas usam seu bico para arrancar pedaços inteiros de pele e gordura.
A baleia, com dor, arqueia as costas imediatamente.
De acordo com uma nova pesquisa publicada na revista científica Marine Biology, esses gigantes marinhos, que podem medir até 16 metros de comprimento e pesar 50 toneladas, estão começando a mudar a forma como respiram para evitar esses ataques violentos.
"As gaivotas produzem feridas, úlceras circulares, que podem se tornar uma via de entrada para agentes infecciosos", diz Ana Fazio, pesquisadora do argentino Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet, na sigla em espanhol) e autora principal do estudo.
"Além disso, sem pele, elas podem perder a temperatura do corpo."
Credito: Ana Fazio
Baleias passaram a respirar sem tirar corpo da água, impedindo ataques das gaivotas
Algumas têm tantas feridas que, quando os ferimentos se juntam, formam uma espécie de pequeno canal.
Mas o maior problema são os filhotes, diz a pesquisadora. "Eles têm a pele muito mais frágil. Mudam de pele muito rapidamente porque crescem muito todos os dias", diz. Isso os torna mais vulneráveis.
Os ataques, que aumentaram desde que começaram a ser observados, não são para saciar a fome - na região, não faltam lixões a céu aberto ou áreas de descarte de peixes. Aparentemente, se trata de um comportamento adquirido e repassado de geração para geração de gaivotas.

Respiração oblíqua

Agora, os indícios são de que foram as baleias quem adquiriram conhecimentos para tornar essa convivência menos prejudicial para a sua espécie.
"Quando as baleias respiram, normalmente levantam primeira a cabeça e depois o corpo. E, se vão fazer um mergulho profundo, levantam a cauda também", disse Fazio.
"O que eu comecei a notar é que, agora, levantam a cabeça até o espiráculo (ofirício usado para respiração na altura da do que seria a nuca) e, em seguida, voltam a entrar na água. Inspiram em um ângulo de 45° e submergem novamente".
Credito: Ana Fazio
Nova forma de respiração exige mais energia das baleias
Fazem isso de forma rápida, explosiva, mantendo o corpo dentro da água.
A pesquisadora diz que esse tipo de comportamento, que ela batizou de respiração oblíqua, está presente apenas nas baleias de Península Valdés.
"Quando a baleia faz essa respiração oblíqua, a gaivota fica boiando ou planando e não ataca."
É diferente de curvar as costas, por exemplo - outro comportamento verificado em adultos -, uma estratégia que também pode evitar bicadas, mas não é exclusiva das baleias da Patagônia argentina.

Energia extra

Apesar de ainda não estar confirmado que isso reduz o número de lesões, é evidente que está limitando as possibilidades de ataque, diz Fazio.
A vantagem deste comportamento, explica, é que também pode ser adotado por filhotes. Porém, a nova estratégia também tem desvantagens.
Credito: Ana Fazio
Os ataques foram observados pela primeira vez nas décadas de 70 e 80
Manter o corpo embaixo d'água exige um gasto de energia extra, algo custoso para os filhotes, que deveriam usar a maior parte de sua energia para mamar, crescer e ganhar força para garantir a viagem para a Antártida.
Além disso, fugir das gaivotas nadando mais rápido também exige um custo de energia adicional.
Apesar de tudo, a estratégia parece estar se consolidando. Na medida em que a população das aves não diminui, os cetáceos continuarão dependendo de sua própria criatividade para ganhar a guerra contra as gaivotas.

Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/12/141209_baleia_gaivota_lab

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Baleias da espécie Bryde voltam a aparecer na orla do Rio


Mamíferos buscam cardumes na orla carioca, segundo pesquisadores.
Animais podem atingir cerca de 15 metros e pesar até 25 toneladas.

Do G1 Rio
  •  
Filhote de baleia nascido no início de 2014, na costa do Rio (Foto: José Laílson/ Divulgação)Filhote de baleia nascido no início de 2014, na costa do Rio (Foto: José Laílson/ Divulgação)
Pesquisadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) observaram a chegada das primeiras baleias da espécie Bryde no litoral do Rio. De acordo com os especialistas, elas procuram as águas do Rio na primavera e verão para se alimentarem de cardumes, chegando muito próximo as praias.
Animais buscam costa carioca para se alimentar no verão (Foto: José Laílson/ Divulgação)Animais buscam costa carioca para se alimentar
no verão (Foto: José Laílson/ Divulgação)
O pico de observação das baleias de Bryde será no verão, nos meses de dezembro e janeiro. Os pesquisadores alertam aos pescadores que durante a busca de cardumes as baleias podem se aproximar muito da orla. Para que as embarcações evitem colisões, eles pedem para os navegantes da região redobrarem a atenção.Esses animais podem atingir cerca de 15 metros e pesar até 25 toneladas quando adultos. Duas das baleias observadas já são conhecidas dos pesquisadores. De acordo com José Laílson, trata-se de uma mãe e seu filhote. O pequeno mamífero é um carioca, nascido no início de 2014 nas águas da orla.

O aparecimento desse tipo de mamífero coincide com o fim da temporada de baleias jubarte, que estavam pela costa do Rio e agora rumam em direção as águas sub-polares e polares.
Baleias da espécie Bryde foram vistas na orla carioca (Foto: José Laílson/ Divulgação)
Baleias da espécie Bryde foram vistas na orla carioca (Foto: José Laílson/ Divulgação)

Fonte: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/11/baleias-da-especie-bryde-voltam-aparecer-na-orla-do-rio.html