segunda-feira, 11 de maio de 2015

A árvore que floresceu em cima do viaduto da Avenida dos Bandeirantes


árvore pata de vaca Bauhinia - árvores de São Paulo 1 - foto de Ricardo Cardim - direitos reservados
Árvore comum na arborização de São Paulo, e geralmente exigente quanto as condições de solo, uma pata-de-vaca (Bauhinia blakeana) cresceu na junta de dilatação do movimentado viaduto de acesso da Marginal do Rio Pinheiros a Avenida dos Bandeirantes, Zona Sul de São Paulo.
Não conheço outro exemplar da espécie vivendo “nas alturas” como esse, e ainda mais adulto e florescendo. Essa espécie é originária de Hong-Kong e suas flores lembram orquídeas, sendo muito ornamentais. Na Mata Atlântica temos uma árvore do mesmo gênero, a B. forticata, de flores menos vistosas e com a cor branca.
árvore pata de vaca Bauhinia - árvores de São Paulo - foto de Ricardo Cardim - direitos reservados

Fonte: Ricardo Cardim - https://arvoresdesaopaulo.wordpress.com/2015/05/11/a-arvore-que-floresceu-em-cima-do-viaduto-da-avenida-dos-bandeirantes/

terça-feira, 5 de maio de 2015

"Showman" dos animais é atacado por jacaré no Pantanal


Fabio Pellegrini - 04/05/15

03022015-rassmussenRichard Rasmussen em uma de suas cenas com animais
Campo Grande (MS) – O apresentador do programa "Mundo Selvagem" (canal NatGeo), Richard Rasmussen, teve um corte profundo em uma mão, causado por um jacaré há cerca de 15 dias, no Pantanal. A assessoria do programa não informou como o fato ocorreu, apenas que ele passa bem.
Richard estava com sua equipe em um hotel na localidade de Passo do Lontra, na Estrada Parque do Pantanal, no município de Corumbá, Mato Grosso do Sul. Após o acidente, ele foi encaminhado a um hospital em Campo Grande, a 315 km dali, onde teve o dedo suturado e retornou para casa, em São Paulo.
Em seu portal na internet "Aventuras do Richard", constam as informações de que Richard é brasileiro, formado em administração e biologia e fã de Charles Darwin. Desde criança gostava de acompanhar o avô materno em viagens pelo Centro-Oeste e Amazonas. Em sua casa mantém a produtora de video Txai e um criadouro conservacionista chamado "A Casa da Tartaruga".
Em 2005, conta a Folha de São Paulo, o Ibama embargou o criadouro e apreendeu cerca de 180 animais, incluindo primatas, aves e serpentes. O principal motivo para a cassação do registro de funcionamento foi a presença, no criadouro, de animais silvestres sem origem comprovada.
A equipe do Ibama autuou Richard em R$ 8.500 por encontrar animais sem a documentação legal necessária. Outras multas, de aproximadamente R$ 280 mil, já haviam sido aplicadas em 2002 pelo mesmo motivo.
Rasmussen é conhecido na tevê brasileira por seus programas em que manuseia animais silvestres livres, em áreas naturais, sem equipamentos de segurança, explanando sobre aspectos comportamentais e biológicos. Em determinadas situações, ele se atira de embarcações em movimento para agarrar jacarés; em outras, rasteja em busca de serpentes para pegá-las e até beijá-las.
A reportagem de ((o))eco apurou que há cerca de seis anos, Richard e sua equipe foram convidados a se retirar de uma pousada, também no Pantanal, por terem mantido um tamanduá-mirim preso no banheiro do quarto para gravação no dia seguinte, pois "não havia luz natural ideal para a filmagem". A informação é da gestora de turismo da empresa, que pediu para não ser identificada. A estratégia fora descoberta por uma camareira. Antes, outros funcionários do hotel haviam libertado um outro animal da mesma espécie que a equipe havia trancafiado em seu veículo.
Ana Paula Felicio, zootecnista da Gerência de Recursos Pesqueiros e Fauna do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), conta que "repetidamente somos contatados pelos profissionais do programa solicitando imagens ou acompanhamento de ações 'simuladas' envolvendo manejo de fauna silvestre. Chamamos de simuladas essas ações, pois houve até um pedido para que disponibilizássemos um filhote de tamanduá para uma cena (havia até um roteiro para a tomada) na qual o animal seria resgatado de um incêndio florestal (que na verdade era um treinamento do Corpo de Bombeiros) onde o sr. Richard faria o resgate em meio às chamas, salvando o animal". Ela afirma que "este exemplo deixa claro o nível de comprometimento destes profissionais com as verdadeiras ações de informar e educar ambientalmente seus telespectadores".
Infração ou educação ambiental?
No Youtube há vários episódios dos programas em que Richard persegue e manipula animais silvestres. Em um deles, o apresentador salta de um barco para capturar uma sucuri (aos 9m16s) no barranco de um rio e a solta em um "lugar melhor", segundo ele.
Em outro, no Pantanal, Richard ensina um garoto a imobilizar um jacaré (aos 12m50s) para soltá-lo em "um lugar seguro e salvar a vida do animal".
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Para a zootecnista, "é possível enquadrar as ações promovidas pela equipe de filmagem e pelo Sr. Richard na Lei de Crimes Ambientais". A Lei de Crimes Ambientais (nº 9.605, de fevereiro de 1998), uma lei federal que prevê o seguinte nos artigos 29 e 32:
Art. 29. Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida:
Pena - detenção de seis meses a um ano, e multa.
Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.
§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.
§ 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal'
Opiniões de especialistas
O biólogo e fotógrafo de natureza Daniel De Granville afirma que, do ponto de vista de educação ambiental, não se pode sair correndo atrás de um animal silvestre para o manipular sem qualquer razão: "A impressão que tenho é que ele faz isso somente para se exibir, mostrar coragem ou domínio sobre o animal, um mau exemplo para os telespectadores. Muitos que o assistem não têm experiência com vida silvestre e acabam achando que isso é correto, correndo risco de sofrerem acidentes como aconteceu com o próprio, ou mesmo causar stress a um animal".
Do ponto de vista jurídico, Daniel questiona a permissão da produção do programa por parte de autoridades ambientais: "Sabemos que, para manipular animais silvestres no Brasil, é necessária uma licença oficial dos órgãos responsáveis, um processo complexo e burocrático. Então como é que esse apresentador está conseguindo essas licenças, e se está, qual a justificativa que ele tem? Mesmo com minhas qualificações, não me sinto no direito de sair por aí mexendo com animais de qualquer jeito, apenas para ter a luz ou o cenário adequados".
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Para o doutor em ecologia e especialista em comportamento animal José Sabino, professor da universidade Anhanguera-Uniderp, a intenção do programa de Richard é importante, mas falta refinamento profissional. "A sociedade brasileira conhece muito pouco nossa rica biodiversidade. Popularizá-la é fundamental. A crítica não é sobre o que ele faz, mas como ele faz. Ele expõe os animais de forma exagerada. Parece não haver gestão de riscos, o que o coloca em um patamar amador. O pior é que o programa incentiva pessoas sem qualquer qualificação ou treinamento a tentar fazer o mesmo, o que pode acabar mal."
O chefe de comunicação da Polícia Militar Ambiental de Mato Grosso do Sul (PMA-MS), major Ednilson Queiroz, explica que todo tipo de intervenção na fauna silvestre exige autorização prévia do órgão ambiental competente. "Em Mato Grosso do Sul, o Ibama acabou de passar esse poder para o Imasul. Sem a licença ambiental, os responsáveis podem responder nas três instâncias do Direito. No âmbito administrativo, as multas podem ser de R$ 500 a R$ 100 mil", diz.
O Ibama, por meio de sua assessoria de comunicação, informou que a equipe do programa só necessitaria de permissão se as filmagens fossem em alguma Unidade de Conservação de âmbito federal; e que a gestão de fauna é competência das autoridades ambientais estaduais.
O Setor de Fiscalização do Ibama informou que poderia autuar e multar Richard se caracterizados maus tratos aos animais, o que deve ser comprovado por laudo feito por profissional de medicina veterinária. Informou ainda que, caso alguém queira denunciar o programa, pode utilizar a Linha Verde do Ibama, pelo telefone 0800 61 8080.
A produção do programa foi contatada por internet e por telefone pela reportagem de ((o))eco mas não informou se possui licença dos órgãos competentes brasileiros para gravar os programas com animais silvestres. A reportagem tentou também ouvir o próprio Richard, mas não teve retorno.
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 Fonte: http://www.oeco.org.br/reportagens/29104-showman-dos-animais-e-atacado-por-jacare-no-pantanal

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Pesca da piracatinga: o boto-rosa não pode ser isca


Adriano Gambarini - 29/04/15

21102014-gambarini-piracatingaRibeirinho exibe piracatinga 'pescada' com uma bacia, logo após a produção do experimento registrado no vídeo. Foto: Adriano Gambarini
Não é de hoje que a pesca do peixe piracatinga (Calophysus macropterus) causa preocupação. A razão é a matança indiscriminada do boto-cor-de-rosa para ser usado como isca para a piracatinga em muitos rios da Amazônia.
Publicado recentemente na revista científica Journal of Applied Ichthyology, especializada no estudo de peixes, o artigo "Uso de golfinhos e jacarés como isca para Calophysus macropterus [nome científico da piracatinga] na Amazônia" detalha as características desta pesca nas regiões do baixo rio Purus e Médio Solimões.
Os pesquisadores responsáveis pelo trabalho são: Felipe Rossoni e Sannie Brum, do Instituto Piagaçu; Leandro Castello, da Virginia Polytechnic Institute and State University, (que fazem parte da equipe do projeto Peixes da Floresta, patrocinado pelo Programa Petrobras Socioambiental); e Vera da Silva, pesquisadora do INPA e da Associação Amigos do Peixe Boi (AMPA). Eles abordam as técnicas pesqueiras, principalmente quanto ao uso de dois aparelhos: a "caixa", amplamente conhecida e utilizada na região do médio Rio Solimões, e o "curral", descrito pela primeira vez e utilizado na região dos rios Purus e Manacapuru. Como o curral é portátil, permite que barcos pesqueiros realizem a pesca da piracatinga em rios sem nenhuma fiscalização.
09102014-gambarini-piracatinga1Cardume de piracatinga (Calophysus macropterus) no Rio Purus, AM. Foto: Adriano Gambarini
A piracatinga é vendida aos frigoríficos da região, que processam o produto e podem tanto comercializá-lo nas cidades próximas quanto exportá-lo à Colômbia.
Os pesquisadores identificaram um aumento da produção de piracatinga de mais de 400% por ano e também, infelizmente, confirmaram a utilização de jacarés e dos golfinhos da Amazônia (boto-rosa e tucuxi) como as iscas principais. Os impactos causados nas populações destas espécies em decorrência da pesca indiscriminada ainda estão sob investigação. Ressalte-se que o boto-rosa já é considerado "em perigo" na última lista de espécies brasileiras ameaçadas, e um dos principais problemas advém da sua utilização como isca na pesca da piracatinga. Matar o boto para usá-lo como isca é uma característica ilegal desta pescaria. Por isso, desde janeiro deste ano, está proibida por cinco anos a pesca da piracatinga em todo o território brasileiro.
Agora, o setor pesqueiro amazônico, junto com o Ministério Público Federal, instituições conservacionistas e universidades buscam soluções para o impasse: a rentável pesca da piracatinga só pode prosseguir se houver alternativas de isca para os pescadores, que não prejudiquem as populações dos botos amazônicos.
27072014-gambarini-piracatingaBoto-rosa no Rio Tapajós, PA. Foto: Adriano Gambarini

Video do experimento
 Fonte: http://www.oeco.org.br/adriano-gambarini/29095-pesca-da-piracatinga-o-boto-rosa-nao-pode-ser-isca

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Sobrevoos confirmam: as toninhas estão desaparecendo.


Em março de 2014, o Projeto Toninhas realizou um grande esforço para conhecer a situação das toninhas no sul do Brasil. O trabalho foi realizado por meio de sobrevoos entre Florianópolis/SC e Chuí/RS. As novas análises comprovam que a situação é alarmante e a estimativa é que apenas 9.500 animais vivem atualmente nesta região, considerada a de maior abundância da espécie no Brasil.


“Embora o governo brasileiro tenha produzido um Plano de Ação Nacional para a Conservação da Toninha, poucas ações práticas, voltadas a redução das ameaças, foram realizadas, o que levou a espécie a se aproximar ainda mais da extinção.”
Marta Cremer - coordenadora do Projeto Toninhas


Fonte: http://novo.univille.edu.br/noticias/Abril-2015/toninhas/676840

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Biólogo usa drones para investigar a floresta amazônica


InfoAmazônia - 22/04/15

*Texto originalmente publicado no Blog do Infoamazonia, por Gustavo Faleiros.
22042015-floresta-droneVista aérea da torre de observação da Estação de Pesquisa Tiputini.
Aeronaves não pilotadas, mais conhecidas como drones, não são apenas armas de guerra ou brinquedos de hobistas endinheirados. Cresce o número de pesquisadores utilizando a tecnologia para ampliar a capacidade de investigação. Na África, por exemplo, drones têm sido utilizados para monitorar a migração de grandes mamíferos e para o combate à caça ilegal. Na Amazônia, já existem pesquisas utilizando drones em busca de antigas civilizações e povos indígenas os empregam para proteger seus terrritórios.
22042015-diego-mosqueraBiólogo equatoriano Diego Mosquera está empregando drones para expandir sua pesquisa. Foto: arquivo pessoalDiego Mosquera é o coordenador da estação de pesquisa Tiputini localizada no Equador. Como biólogo, tem o privilégio de estar dentro do local que ainda hoje é considerado como um dos maiores repositórios de vida em todo planeta, o Parque Nacional do Yasuní. Em 2010, convidado pela Universidade São Francisco de Quito, que coordena a estação, fiz uma visita ao Tiputini. Foi uma das experiências mais fortes que já tive na Amazônia. No local existem torres de observação de 50 metros de altura que nos levam a uma posição acima do dossel. Dali, se tem a impressão de estar contemplando uma selva infinita.
Na ocasião da visita, Diego já trabalhava no Tiputini e nos contou sobre seu trabalho com as armadilhas fotográficas, que monitoram a incrível fauna que vive no Yasuní. Seguindo seus passos no Facebook, notei que postava fotos de uma perspectiva diferente e descobri que tem utilizado um drone para observar a diversidade amazônica em uma escala ainda maior.
"A floresta amazônica é muito diversificada na composição de plantas e imagens aéreas podem 'mapear' a floresta em grande detalhe para localizar determinados habitats de interesse", ele explica.
A seleção das fotos neste artigo são imagens coletadas pelo drone do biólogo. Na pequena entrevista a seguir, ele conta quais são suas expectativas sobre como o equipamento pode ajudar na conservação.
Como começou a trabalhar na estação de Tiputini? O que você investiga?
Estudei ecologia na universidade e trabalhei em vários projetos na Amazônia quando me formei. Desde 2005, eu tive a oportunidade de trabalhar no Tiputini, pois os diretores foram meus professores. Eu coordeno um projeto que visa documentar a diversidade de mamíferos terrestres e aves através de armadilhas fotográficas, com a ideia de padrões de diversidade, circulação e utilização de recursos e ver como esses padrões mudam com o tempo.
Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas
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Como começou a usar drones?
Comecei a usar drones há 4 meses atrás. Os drones são muito populares nos dias de hoje e seu uso têm um grande potencial para muitas atividades. Eles têm sido usados ​​em todo o mundo para monitorar o desmatamento e caça ilegal e pesca entre muitos usos. Recentemente, tive a oportunidade de comprar um drone e estou particularmente interessado em seu uso para monitoramento da fauna e para mapeamento dos ecossistemas aquáticos e terrestres.
Já encontrou o uso para sua pesquisa científica?
Ambos os drones como armadilhas fotográficas são ferramentas de monitoramento. Nosso projeto é colocar armadilha para as câmeras do nível do solo, de modo que, em teoria, não existe uma relação direta com o uso de drones. No entanto, queremos expandir a nossa investigação para locais mais distantes e para isso os drones são muito úteis. Podemos identificar potenciais locais, avaliar a sua condição, acessibilidade e até mesmo a sua diversidade. A combinação de drones e armadilhas fotográficas nos ajuda a ter uma visão muito mais ampla da floresta e sua dinâmica. Ao usar drones salvo muito tempo e esforço e, acima de tudo causamos menos impacto, porque, como armadilhas fotográficas, drones são uma técnica não-invasiva. Ao mesmo tempo, o uso de drones em combinação com fotografia aérea nos fornece detalhes da floresta que, por vezes, não conseguem obter imagens de satélite é devido à presença de nuvens. Isso nos ajuda também a tarefas de monitoramento ambiental, como o monitoramento do desmatamento, o avanço da agricultura, a abertura de canais de acesso ilegal ou caça.
Fonte: http://www.oeco.org.br/reportagens/29080-biologo-usa-drones-para-investigar-a-floresta-amazonica


terça-feira, 31 de março de 2015

Xingu: estudo demonstra importância de áreas protegidas para preservar ciclo da água

Vandré Fonseca - 30/03/15

30032015-rio-xinguRio Xingu. Foto: GEF
Manaus, AM – As áreas protegidas ao longo da Bacia do Xingu têm contribuído com o ciclo hidrológico da região. Elas ajudam a manter a vazão de água do rio estável e compensam os efeitos das variações climáticas. A conclusão é de um estudo publicado em março no Journal of Hydrology, por pesquisadores do instituto americano Wood Hole Research Center (WHRC).
"Nossos resultados mostram que onde houve desmatamento o ciclo hidrológico foi alterado de forma considerável, mas as áreas protegidas tiveram um papel essencial, porque restringiram os impactos negativos da parte sul da bacia", diz Prajjwal Pandayo, líder do estudo.
O Xingu nasce no cerrado, no Estado do Mato Grosso. Embora as cabeceiras tenham sofrido desmatamento, cerca de 55% dos 770 mil quilômetros quadrados da bacia hidrográfica estão protegidos por um mosaico de Terras Indígenas e Unidades de Conservação.
A pesquisa faz parte de um esforço dos cientistas para entender quais os efeitos das mudanças que vêm ocorrendo na Bacia Amazônica, em diferentes escalas. "Até certo ponto, você desmata e tem produção agrícola, mas você pode chegar a um ponto em que a produtividade é afetada", afirma a brasileira Márcia Macedo, que faz parte do grupo de pesquisadores. De acordo com ela, o desmatamento acelera o ciclo hidrológico. A água que cai em forma de chuva, em vez de ser reciclada pela vegetação, corre direto para o rio. Um estudo publicado em 2013 já havia demonstrado que o desmatamento pode estender a estação seca na região, causando problemas na geração de energia da Usina de Belo Monte.
Outro estudo, sobre o Rio Araguaia, publicado em 2011 no periódico Biogeochemistry [acesso ao conteúdo pago], indicou uma elevação de 25% na vazão do Araguaia nos anos de 1990, em comparação com a década de 1970. A causa apontada para esta elevação é o desmatamento, que, na época, já atingia mais da metade da bacia hidrográfica.
30032015-mapa-xinguMapa da Bacia do Xingu. Rio nasce no cerrado e tem as cabeceiras bastante desmatadas. Terras Indígenas e áreas protegidas formam um mosaico que ajuda a preservar o ciclo hidrológico. Crédito: WHRC/DivulgaçãoEfeitos inversos: clima e desmatamento
Para separar os efeitos do desmatamento dos efeitos da variação climática natural, a equipe de cientistas utilizou observações de campo, dados de satélite e modelos de vegetação dinâmica para simular o balanço hídrico da Bacia do Xingu. Os pesquisadores descobriram que até agora o desmatamento provocou mudanças relativamente pequenas, com uma diminuição sutil na evapotranspiração e um aumento no escoamento de água através do solo para o rio. O resultado foi um crescimento da vazão de 6%, relacionado diretamente ao desmatamento.
As variações climáticas ao longo deste mesmo período tiveram o efeito inverso sobre o ciclo de água: houve uma redução de 14% na vazão, devido à diminuição das chuvas.
"A gente vê só uma pequena variação (da vazão do rio), porque desmatamento e variação climática tiveram efeitos opostos", afirma Márcia Macedo. "Mas quando a gente vê só as cabeceiras, o efeito é mais dramático, porque houve mais desmatamento".
Para outro pesquisador que participou dos estudos, Michael Coe, a conclusão é que as áreas protegidas funcionam. "Ao limitar a agricultura para uma fração relativamente pequena da bacia, elas evitam grandes mudanças no ciclo hidrológico", destaca Coe. "Outras bacias hidrográficas que não foram tão bem protegidas já estão sofrendo as consequências. Isto é extremamente importante para os povos indígenas do Xingu, para a biodiversidade, e para a eventual geração de energia pela hidrelétrica do Belo Monte em Altamira".

Fonte: http://www.oeco.org.br/noticias/29030-xingu-estudo-demonstra-importancia-de-areas-protegidas-para-preservar-ciclo-da-agua

segunda-feira, 2 de março de 2015

Fábrica de árvores

Viviane Taguchi | Fotos Ernesto de Souza, de Trancoso (BA)


Editora Globo
Bruno Mariani no viveiro de mudas em Trancoso (BA)

Uma nova despesa vai entrar no orçamento do produtor rural, a do reflorestamento das Áreas de Proteção Permanentes (APP) e de Reserva Legal (RL). O Ministério do Meio Ambiente estima que 35 milhões de hectares no país tenham de ser restaurados – replantados ou induzidos à recuperação – para que as fazendas atendam às normas do novo Código Florestal, e o preço dessa conta pode chegar a R$ 350 bilhões, calculados a partir do custo médio do reflorestamento com mudas (R$ 10 mil por hectare). É dinheiro que não acaba mais para um mercado novo, que já nasce com muitos gargalos: não há tantas sementes disponíveis, a mão de obra (os mateiros, homens que coletam sementes) é rara e há poucos viveiros de mudas nativas regularizados no país. Ou seja: investir nessa área pode ser um bom negócio. Para o produtor, um alento: com exceção das APPs, onde a exploração é proibida, reflorestar as Reservas Legais pode ser uma maneira inteligente de diversificar a propriedade e obter lucros com o comércio de madeiras nobres certificadas, a extração de óleos, a venda de sementes e até o recebimento por prestação de serviços ambientais. A fortuna que se esconde na mata já desperta o interesse de pequenos produtores de mudas e de grandes investidores, que estão plantando verdadeiras florestas pelo Brasil afora. 

“Doutor Renato, quero ter uma fábrica de árvores, um grande reflorestamento de Mata Atlântica, porque é disso que o mundo precisa e é isso que o mercado financeiro quer. Você topa?” Com esse convite, o banqueiro Bruno Mariani (BBM), de 50 anos, convenceu o engenheiro florestal Renato de Jesus, de 61 anos (40 de florestas), a colocar em prática um megainvestimento, inédito no mundo, a Symbiosis, em Trancoso (BA). O encontro dos dois foi mais ou menos como juntar a fome com a vontade de comer. Mariani vem do mercado financeiro e é apaixonado pela natureza. Levava bronca da avó quando criança, porque vivia plantando árvores no jardim da casa dela, no Rio de Janeiro, e até hoje “fala” com plantas. Jesus, por sua vez, visitou florestas do mundo inteiro em busca de conhecimento e já plantou 93 milhões de árvores, contabilizadas até dezembro de 2012. Mariani e Jesus trabalham, literalmente, em simbiose, uma relação mútua vantajosa em que dois ou mais organismos diferentes são beneficiados. 

Na fazenda de 330 hectares, a 17 quilômetros da praia, está a primeira floresta plantada pelos dois. “Aqui era uma área de pastagens degradadas. Estava abandonada”, lembra Mariani, que também é presidente do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). “Hoje, dois anos e meio depois de iniciarmos o plantio, temos todas as margens reflorestadas, com cerca de 200 espécies da vegetação local e mais 30 de árvores nativas plantadas para produção de madeira”, diz o banqueiro, que tem em mãos um plano de negócios que ele considera uma aposentadoria de ouro: 100.000 hectares de florestas nativas plantadas para atuar no mercado financeiro e na venda de madeiras nobres. 
Editora Globo
Na Symbiosis, 30 espécies nativas são plantadas para o mercado de madeira

Foi em 2006 que Mariani começou a pensar em plantar árvores. Primeiro, pensou que poderia unir sua paixão ao mercado de créditos de carbono para faturar, mas, conversando com Jesus, concluiu que poderia criar um negócio maior e mais valioso. “Florestas são investimentos de longo prazo e baixo risco. Sua rentabilidade é comparável a um investimento de renda fixa, e os preços da terra e da madeira têm alta correlação com a inflação”, diz ele. “Isso transforma a floresta no ativo mais desejado pelos fundos de pensão nos Estados Unidos e na Europa.” De acordo com o executivo, vários fatores influenciam na rentabilidade da floresta: a valorização da terra, o crescimento biológico das árvores, a perspectiva de redução da oferta de madeira que vem de florestas naturais, além do crescimento econômico de países emergentes. “O crescimento biológico melhora a rentabilidade porque, quanto maior a árvore, maior o seu uso e maior será o seu preço”, explica. “A floresta não depende de nenhum fator do mercado para crescer, só de água e luz. Então, em mais ou menos quatro anos, quando as árvores já são mais resistentes, é possível calcular o valor do ativo de forma transparente.” 

Mariani e mais sete sócios que entraram de cabeça no negócio estão na fase de investimentos, até agora de R$ 20 milhões. “É um bem que estamos fazendo para o planeta e, é claro, precisamos rentabilizar o negócio para ser viável. Isso vale tanto para o grande investidor como para o pequeno agricultor. É a regra do jogo”, diz. “O objetivo é atender à demanda por produtos madeireiros sem alterar os mecanismos dos ecossistemas que se sustentam.” O retorno pode girar em torno de 10% nos primeiros cinco anos, com a venda de madeira de crescimento rápido, como as utilizadas para produzir cabos de ferramentas, e podem ser retiradas de árvores que atingem o ponto de corte em 18 a 20 meses (cada cabo custa, em média, US$ 6). “Depois, vêm outras estratégias.” 

PLANTAR FLORESTAS 

Renato de Jesus não é sócio do empreendimento, mas o diretor executivo e a voz mais ativa do grupo. “Ele manda aqui”, diz Mariani. “Com toda a sua experiência (por 33 anos ele foi responsável pelos projetos ambientais da Vale), temos a certeza de estar fazendo a coisa certa”, afirma. “A coisa” é a floresta planejada e plantada em consórcio com 30 espécies de rápido, médio e longo tempo de crescimento. Nos próximos quatro anos, Jesus vai plantar 1.000 hectares de florestas em áreas planas, degradadas, com altitude máxima de 400 metros. É ele quem seleciona as espécies e matrizes, cuida do viveiro de mudas e se debruça na difícil tarefa de capacitar mão de obra, além de monitorar o plantio, testar espaçamentos e criar um banco de genética para garantir a oferta de sementes. “Nessa fazenda, faltam 50 hectares para ser plantados; terminaremos em maio. Então, começamos a segunda área comprada, de 450 hectares. Vamos tocar tudo ao mesmo tempo”, diz ele. “O negócio é simples: se você quer madeira nobre, tem de plantar e replantar florestas onde puder”, afirma. A nova fazenda, Água Branca, também fica na região de Trancoso e é uma terra degradada. Jesus visitou 67 propriedades antes de encontrá-la e conta que, em dois anos, o preço da terra na região dobrou. Nos próximos anos, mais uma área será comprada. “Quando terminarmos o plantio de florestas em 1.000 hectares, teremos viveiros para suprir nossa demanda, tecnologia e mão de obra especializada, além do banco genético, e aí sim poderemos passar para a fase seguinte, acelerar o processo”, afirma. “O ecossistema já terá saído da UTI, teremos oferta de madeira para vender, uma agrofloresta de uso múltiplo que não sofre com as oscilações do mercado, que se autossustenta”, diz Jesus. 
Editora Globo
Renato de Jesus: "Temos de plantar floresta onde pudermos"

A segunda fase será abrir o capital da empresa a investidores estratégicos e captar recursos. E é aí que entram os fundos de pensão, que pagarão ágio pelas ações, ou a criação de private equity para comprar mais 99.000 hectares de terras, em várias regiões do país, e construir um grande estoque “vivo” de árvores. “Não teremos estoque de madeira cortada, nosso estoque estará plantado”, afirma. “E, por conta das mudanças climáticas, é prudente diversificar a geografia do empreendimento, para minimizar os riscos de seca ou de excesso de chuvas”, diz Mariani. O plano é distribuir as fazendas por quatro regiões: Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais. Em 68% delas, serão usadas, em média, 30 espécies diferentes, que garantirão a preservação de sua genética e a sua propagação. 

 Jardins brasileiros

Seis biomas (conjunto de tipos de vegetação que abrange áreas contínuas, em escala regional, com flora e fauna similares definidas pelas condições físicas da região) cobrem o território brasileiro. São o clima, a geografia e as rochas que fazem com que um bioma seja dotado de uma diversidade biológica própria. “Cada qual tem suas características próprias, plantas e animais, por isso é necessário que o reflorestamento seja bem planejado”, explica o biólogo Severino Rodrigo Ribeiro, do Centro de Estudos Ambientais do Nordeste. 
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Editora Globo
 Em fase de crescimento 

Não há sementes nem mudas em quantidade suficiente para atender à demanda crescente 
Editora Globo
André Nave, do viveiro Bioflora, em Piracicaba

Em Piracicaba, no interior de São Paulo, está o maior viveiro privado de mudas nativas do país, o Bioflora. O proprietário, André Nave, agrônomo, não tem nem sequer uma brecha em sua agenda desde 2011, quando ele resolveu ampliar o negócio. “Com ou sem o código, o setor vem crescendo. A demanda é muito grande e a oferta baixa”, diz. Nave percebeu isso quando as discussões sobre o Código Florestal estavam só começando e abriu duas filiais do Bioflora, na Bahia e no Rio de Janeiro. Neste ano, já com a lei aprovada pela presidente Dilma Rousseff, ele quer mais dois viveiros, no Pará e em Pernambuco. “Ainda há discussões pipocando no Congresso sobre o tamanho das APPs que deverão ser restauradas, mas, independentemente disso, a demanda por mudas e conhecimento especializado é grande. E vai aumentar”, acredita. 

Nave tem um olhar estratégico sobre o negócio. Em 1998, instalou o Bioflora em Piracicaba, região rodeada por usinas de cana, que estavam começando a acordar para a importância da restauração. “Em regiões onde há concentração de usinas, o reflorestamento de APP e RL é praticado faz tempo. São áreas historicamente degradadas”, conta. Depois, vieram os condomínios residenciais que buscam clientes da capital, cansados do caos urbano. “Já é possível comprar um terrenos com uma minifloresta”, conta o empresário, indicando uma tendência forte na região de Piracicaba. “O cidadão urbano quer proteger o meio ambiente, quer uma vida saudável, e o agricultor sabe que ele vai valorizar as terras se plantar florestas nelas”, diz. “Ter cobertura vegetal na propriedade rural é um ótimo negócio.” 
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Na Bioflora, são produzidos 4 milhões de mudas por ano

O Bioflora produz 4 milhões de mudas nativas por ano. “Em cada região, mesmo em se tratando do mesmo bioma, há uma grande variedade de mudas”, explica. “Nem sempre o que é bom em São Paulo é bom para a Bahia. Existem diferenças regionais.” O número de mudas de seu viveiro corresponde a um terço de toda a produção paulista, estimada em 41 milhões de unidades, de acordo com o Diagnóstico de produtores de mudas florestais nativas do Estado de São Paulo, realizado pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente por meio do Instituto de Botânica (Ibot). “O Estado de São Paulo, líder em produção de mudas no país, tem condições de dobrar esse volume”, diz o relatório. 

O problema é que, dos 211 viveiros existentes no Estado, apenas 35 (16,5%) possuem o Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem), órgão do Ministério da Agricultura (Mapa). Isso mostra que, dos 41 milhões de mudas, 23 milhões estão sujeitas a sofrer sanções na comercialização ou na venda da madeira, na ponta final da cadeia, porque não terão um histórico de origem. “A rastreabilidade é uma garantia para o comprador”, lembra Nave. 

Fora de São Paulo, a coisa complica mais. De acordo com o Instituto Brasileiro de Florestas (IBF), Santa Catarina e Paraná possuem 82 e 46 estabelecimentos respectivamente. Depois, vêm Minas Gerais e Mato Grosso, com 15 cada um, e Mato Grosso do Sul, com 13 viveiros. As demais regiões padecem de escassez. “Temos uma área de Mata Atlântica na Região Nordeste, que vai do Rio Grande do Norte ao sul da Bahia, extremamente destruída e que necessita urgentemente ser restaurada. E só encontramos mudas em São Paulo, no Rio”, lamenta o biólogo Severino Rodrigo Ribeiro, do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), com sede no Recife (PE). “Quando chegam aqui, já perderam a qualidade, e o mesmo acontece com as mudas do Cerrado vendidas na Região Sul, que chegam ao destino sem aproveitamento. É um mercado carente, deficiente”, diz. “Vale lembrar que o viveiro é um dos setores essenciais dentro do processo produtivo, por conta da importância da qualidade das mudas.” 
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Ricardo Ribeiro, da Esalq: "O código não vai quebrar o país"

Outro item que pesa no reflorestamento é a logística. “O investimento já não é barato e arcar com mais um custo encarece, desestimula o produtor a investir voluntariamente”, diz. Segundo ele, o preço do reflorestamento por mudas, por hectare, varia entre R$ 8 mil e R$ 10 mil na Mata Atlântica (R$ 20 mil quando na Região Nordeste), de R$ 8 mil a R$ 12 mil na Amazônia e custa R$ 12 mil no Cerrado. “Mas há alguns sistemas de plantio, como a muvuca, que podem minimizar os custos. Tudo vai depender do diagnóstico da área, do bioma, das condições climáticas e se na região existe ou não um mercado florestal já estabelecido”, explica. Ricardo Ribeiro Rodrigues, do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (Lerf) da Esalq/Usp, de Piracicaba, diz que o plantio de mudas só é necessário quando a área está extremamente degradada. “Áreas não tão prejudicadas têm a capacidade de se regenerar sozinhas”, explica, citando casos em que a área pode ser induzida à recuperação. “Por isso, reflorestar não é tão caro quanto dizem, tudo vai depender do diagnóstico da área, feito por especialistas, antes do investimento inicial”, diz. “E também tem a questão do retorno que o produtor poderá ter no futuro com a comercialização de produtos florestais. Eu discordo quando dizem que o Código Florestal vai quebrar o país.” 

Rodrigues estima que as áreas de APP que deverão ser reflorestadas no Brasil cheguem perto de 13 milhões de hectares e as de RL a 10 milhões de hectares. No campo, ele recomenda o plantio de 1.700 mudas por hectare, o que implicaria em uma demanda de 40 bilhões de mudas para os próximos cinco anos. “Está muito, mas muito longe, de atender à necessidade”, alerta. “Isso sem falar no problema do mercado de fornecimento de sementes.” 



 Ficar bem na foto
Cadastro Ambiental Rural entra em vigor no mês de maio e é obrigatório 
A partir do mês de maio (prazo máximo para que o sistema comece a funcionar), entra em vigor no Brasil o Cadastro Ambiental Rural (CAR), um mapeamento via satélite em que todos os 5,2 milhões de propriedades rurais, pequenas, médias e grandes, serão “desenhadas” em um sistema virtual do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Paulo Guilherme Cabral, secretário de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável do ministério diz que o objetivo é unificar todos os dados nacionais para que a área exata que deve ser reflorestada, no país todo e em cada propriedade, seja definida. “O proprietário da terra deve entrar no site do Ministério do Meio Ambiente ou do Ibama e baixar um programa, exatamente como já se faz com o imposto de renda”, explica. “Ele terá acesso a uma foto feita por satélite de sua propriedade e irá desenhar sobre essa imagem as áreas que serão reflorestadas, as APPs e a Reserva Legal. Esses dados serão enviados ao sistema.” Cabral diz ainda que o sistema é inteligente. “Se houver conflito de informações de áreas, como ultrapassar a área do vizinho, por exemplo, o declarante vai receber uma notificação para voltar ao sistema e corrigir a sua declaração.” 

Segundo o secretário, o não preenchimento do CAR poderá trazer complicações, como a não adequação ao Programa de Regularização Ambiental Estadual (PRA) e o bloqueio do acesso ao crédito bancário. “Vai ser como cair na malha fina do leão, só que agora do Meio Ambiente”, afirma. De acordo com ele, cadastros já feitos por algumas instituições como ONGs, cooperativas e sindicatos já valem para o CAR. “Estamos estreitando as relações com essas instituições, que são mais próximas do produtor rural, para que todos os proprietários de terra estejam adequados”, diz. “É preciso pensar como um todo.” 
 Muvuca recupera cerrado
Técnica de reflorestamento, importada dos índios do Xingu, reduz custos e seduz os agricultores baianos 
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A ecologista Georgina Cardinot e sua muvuca

Em Luís Eduardo Magalhães, cidade baiana inserida no bioma Cerrado, a regeneração florestal faz parte da rotina dos produtores de grãos. O município é responsável por 60% da produção de grãos da Bahia e tem 99,9% das Áreas de Proteção Permanentes (APP) em conformidade com a legislação. Segundo Humberto Santa Cruz, prefeito e também produtor rural, faltam 1.600 hectares para ser regularizados. “Isso vai acontecer logo”, garante. “E com a muvuca”, diz. Muvuca é um sistema que vem sendo utilizado em larga escala na cidade desde agosto do ano passado, quando Georgina Cardinot pisou lá. Ela, ambientalista casada com um produtor de soja de Canarana, na região do Alto Araguaia (MT), aprendeu a técnica no Parque Indígena do Xingu e, junto com a ONG Conservação Internacional (CI) e a Monsanto, levou a técnica até Luís Eduardo Magalhães, em um projeto chamado APP 100%. “É uma muvuca mesmo, tudo bagunçado”, conta. “É uma confusão de sementes agrícolas e florestais típicas do Cerrado, misturadas à areia e disseminadas nas áreas que devem ser reflorestadas, com máquinas agrícolas”, diz. A manutenção da área exige aplicações de herbicida se a braquiária aparecer. Segundo Georgina, a muvuca alivia o bolso do produtor. De acordo com a CI, para reflorestar 1 hectare no Cerrado com mudas, é preciso desembolsar R$ 12 mil. Com a muvuca, esse custo cai para R$ 3.200 por hectare. 

O engenheiro florestal da entidade, Paolo Sartorelli, explica que, por ser mais rústica, a vegetação do Cerrado não exige tantos cuidados como a da Mata Atlântica e tem o crescimento mais rápido, com exceção de algumas árvores. “Um ano após realizar a muvuca, é possível ter uma vegetação de cobertura farta, pois no plantio também incluímos sementes agrícolas como a crotalária, o feijão-de-porco, o milheto e o guandu. Essa cobertura protege o solo, fixa nitrogênio e cria um ambiente favorável para as árvores”, explica. “O manejo fica por conta do olho do produtor”, diz. “O agricultor sabe muito bem como cuidar de uma área plantada. Agora, ele tem de se habituar a cuidar também da área reflorestada, até que ela se cuide sozinha.” 


 “Meu escritório é a mata” 
A renda mensal de um coletor de sementes como Marilene Mendes pode chegar a R$ 1.200 por mês 
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A coletora de sementes em mata do Cerrado

Marilene Mendes tem 57 anos, mora em Luís Eduardo Magalhães (BA) e está feliz da vida. Ela se empolgou tanto com a história de coletar sementes na mata (estima que já colheu 20 quilos) que virou a coordenadora de uma rede de coletores e já ganha mais que o marido, tratorista. Ele tem um salário mínimo; ela recebe R$ 1.200. “A primeira coisa que eu fiz com o dinheiro foi comprar um bode. Depois, uma geladeira, iogurte e também um cavalo”, diz ela, com lágrimas nos olhos. A emoção da mulher só não é maior que a vontade de faturar mais. Todos os dias ela se embrenha na mata para trabalhar. “Eu vou para a mata, faça chuva ou sol. Gosto de andar no mato, me faz bem, e principalmente descobri como é importante fazer esse trabalho. Quase ninguém faz”, afirma. A coletora de sementes diz que nunca havia ouvido falar que poderia ganhar dinheiro cuidando da mata antes. “Eu não botava fé nesse negócio. Não penso em outra coisa. Meu escritório é a mata.” Hoje, ela e mais 90 profissionais treinados pela CI e pela Monsanto vivem desse negócio no assentamento Rio das Ondas. É também lá que o comércio, a Bolsa de Sementes de Luís Eduardo Magalhães, funciona, com apoio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Após uma boa coleta na mata, as sementes são lavadas, passam por um choque térmico, para quebrar o ponto de dormência – técnica que Paolo Sartorelli ensinou às coletoras –, e depois são separadas por espécies e vendidas por quilo. Os preços são estabelecidos de acordo com o mercado, que oscila entre demanda, oferta e bioma. “As sementes aladas são as mais raras, portanto mais caras, mas elas também são mais leves e pesam menos. Você fica querendo encontrar cada vez mais delas na mata”, diz a mulher. 

No interior de São Paulo, André Nave, da Bioflora, também conta com coletores capacitados pelo Lerf, da Esalq. As sementes da Mata Atlântica valem um pouco mais e cada coletor consegue ter um rendimento mensal de cerca de R$ 2.500 a R$ 3 mil. “Com o tempo, o trabalho começa a deixar essas pessoas apaixonadas pela mata. Elas são profissionais que estão tendo uma ótima oportunidade, além de saberem que são extremamente importantes para a cadeia”, diz Nave.
Fonte: http://revistagloborural.globo.com/Revista/Common/0,,ERT332272-18282,00.html